Diocese de Aveiro faz 66 anos A restauração da Diocese de Aveiro aconteceu há sessenta e seis anos. Depois de um demorado processo, com avanços e recuos, com entusiasmos e perplexidades, em 24 de Agosto de 1938, o papa Pio XI assinou finalmente a respectiva bula, cuja execução se verificou em 11 de Dezembro seguinte. Mons. João Gaspar, memória viva da diocese, tem-se dedicado a escrever sobre o acontecimento, que não pode deixar de fazer parte da história de Aveiro. Por isso, fomos ao seu encontro e conversámos com ele; do diálogo, tomámos alguns apontamentos.
Correio do Vouga: – Que recordações tem da restauração da Diocese de Aveiro?
Mons. João Gaspar: – Aí por finais de 1936, quando iniciava os estudos na Escola Primária de Eixo, comecei a ouvir o meu pai falar frequentemente sobre o assunto; também me fui apercebendo de que o prof. João de Pinho Brandão trocava impressões acerca do mesmo tema com as colegas, durante os nossos recreios. Fiquei a saber que um bispo, D. João Evangelista de Lima Vidal, liderava o movimento, sendo acompanhado por muitos aveirenses da cidade e da região.
Mais tarde, precisamente no dia 30 de Outubro de 1938, que era domingo, o nosso prior, padre Manuel da Cruz, anunciou as horas das Missas de Todos-os-Santos e dos Fiéis Defuntos. Depois, numa expressão de grande alegria, disse que estava restaurada a Diocese de Aveiro, à qual Ei-xo ficava a pertencer, deixando a de Coimbra; na passada quinta-feira fora conhecida publicamente a assinatura da respectiva bula papal. Eu ainda não tinha nove anos e estava na igreja, junto de meu pai, participando na Eucaristia.
Guardo dessa altura uma curiosidade muito particular. Tão intensamente vivia a causa que, na minha inocência – ou ingenuidade – ia solicitando, em oração ao Senhor, que “fosse bispo de Aveiro”; umas semanas ou meses depois, haveria de corrigir o pedido: “que fosse padre”.
CV: – A restauração da Diocese era uma ânsia do povo? E também do clero?
JG: – O acontecimento, que sobejamente demonstrou quanto o povo ansiava pela restauração da Diocese, foi a adesão dos cristãos – e não só – que se verificou na tarde do dia 11 de Dezembro de 1938. Desde a recepção ao primeiro bispo, o referido D. João Evangelista, nas fronteiras do norte, no limite da Branca, o cortejo até Aveiro foi uma autêntica festa oficial e popular; houve manifestações públicas de rua, cerimónias municipais em Albergaria-a-Velha e em Aveiro, entronização na sé com ora-ções de louvor a Deus, misturadas com palavras de gratidão ao Santo Padre, de elogio ao principal promotor, de exaltação das belezas da nossa Terra.
Mas não só. Nos anos anteriores, houve abaixo-assinados dos sacerdotes e de muitíssimas pessoas, atitudes de encorajamento, ofertas de imóveis e colectas monetárias. A ideia alastrara por toda a região.
CV: – Pode explicar como surgiu o movimento restauracionista da Diocese?
JG: – A Diocese de Aveiro, criada em 1774, fora extinta em 1882. A partir desta data, o rio Vouga passou a ser a divisória entre as Dioceses do Porto e de Coimbra, ficando todo o concelho de Sever do Vouga na jurisdição da de Viseu. Portanto, a cidade de Aveiro era de Coimbra.
A primeira reunião para se tratar do possível ressurgimento da Diocese realizou-se em 1924, por iniciativa da conhecida e saudosa D. Conceição Maria dos Anjos – a Conceiçãozinha dos ovos moles da Costeira – que con-gregou diversas personalidades. Ela baseara-se num texto do célebre historiador local, Rangel de Quadros, que, logo após a mencionada extinção, fora o porta-voz do descontentamento dos aveirenses. Esta senhora difundia por toda a parte o seu ideal, de tal forma que convenceu pessoas simples e homens influentes. Seguiram-se mais encontros, audiências na Nunciatura Apostólica e no Patriarcado de Lisboa, uma exposição dirigida ao Santo Padre e pareceres dos bispos de Coimbra, do Porto e de Viseu.
Entretanto, apanhado pela causa, D. João Evangelista de Lima Vidal, aveirense até ao âmago, a partir de 1932 tornou-se naturalmente o presidente e dinamizador da respectiva Comissão Promo-tora.
CV: – Tratando-se de uma Diocese feita com parcelas de território de outras Dioceses, houve resistência de alguma das partes?
JG: – Tendo sido consultados individualmente, os bispos em referência terão pensado nos prós e nos contras da restauração da Diocese de Aveiro, na índole do povo e no ambiente da cidade proposta para sede episcopal. Em face disto, foram moderados e circunspectos, não se deixando levar pelos primeiros entusiasmos, como é próprio de homens responsáveis – o que tudo serviu para melhor se ponderar.
O bispo de Coimbra, em 1932, diria ter dúvidas na viabilidade da restauração da Diocese, por falta de recursos para ela se manter, em face das realidades concretas: rendimentos materiais, casa para o paço episcopal, edifício para o seminário, pessoal eclesiástico, etc.; contudo, informava que não se oporia. O bispo do Porto respondeu de modo semelhante, juntando apenas uma exposição do clero de Cambra, que preferia não mudar de Diocese, por falta de comunicações com Aveiro. O bispo de Viseu apenas disse que se deveria atender ao bem espiritual do povo e que tal iniciativa projectava essa finalidade.
CV: – Há quem diga que a Diocese de Aveiro deveria estender-se a mais território. Na altura o assunto foi debatido? Foi consensual a geografia da Diocese?
JG: – O assunto dos limites da Diocese foi a peça mais demorada e delicada de todo o processo, largamente debatido. A Santa Sé, em certa ocasião, sugeriu que o seu território abarcasse toda a ria; por isso, além dos dez con-celhos que iriam ficar a pertencer-lhe, também se deviam incluír os de São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Ovar, Mira e parte dos de Vale de Cambra e de Cantanhede.
Dada a reacção, sobretudo surgida no norte do mapa aventado, pôs-se de parte o alvitre da Santa Sé. Também não se caminhou para uma restauração pura e simples da velha Diocese, com os limites que tinha então, mas projectou-se um novo mapa que, apesar de qualquer resistência esporádica, foi superiormente aceite. É este o que temos.
CV: – Que acontecimen-tos destaca nos sessenta e seis anos de vida da Diocese de Aveiro?
JG: – Seria um nunca-acabar de acontecimentos a destacar, ao longo da história da Diocese de Aveiro, com variados matizes. Foi em 1940 o atentado à vida de D. João Evangelista, que o colocou às portas da morte e que, se tivesse o efeito preten-dido pelo(s) agressor(es), dificultaria o futuro da mesma Diocese. Foi a realização do I Sínodo, de 1941 a 1944, que teve o condão de unificar a disciplina em toda Diocese. Foi a construção do Seminário de Santa Joana na década de 1940 e, posteriormente, a do Seminário de Calvão. Foi o Curso de Apostolado Paroquial na Curia, em 1949, que abriu novas perspectivas pastorais para a actividade evangélica e que deu brado em todo o País. Foram os Cursos Sociais e Pastorais, nos anos seguintes, que constituíram uma autêntica formação de agentes eclesiais.
Além de tudo isto, não posso esquecer as visitas pas-torais em novos moldes, que se tornaram em verdadeiras missões populares, com diversificadas actividades, como encontros, conferências, pregações, catequeses, celebrações litúrgicas, visitas às autarquias, às empresas, às associações, às instituições de solidariedade e aos doentes e idosos nas suas casas. Delas falaram órgãos da comunicação social, nacionais e estrangeiros.
Nesta conversa informal, não posso esquecer os cinco Congressos Eucarísticos (1940-1944), o Congresso Catequístico (1949), o Con-gresso dos Leigos (1988), o II Sínodo (1990-1995). E lembro ainda a grandiosa, inolvidável e profética “Manifestação dos Cristãos”, em 1975, para defesa dos direitos fundamentais, a que aderiram homens e mulheres de diversos credos religiosos, ideologias políticas e categorias sociais; os aveirenses demonstraram, perante nacionais e estrangeiros, que eram pela democracia alicerçada na justiça, sem atropelos nem vinganças.
CV: – Tendo colaborado com todos os bispos da nova Diocese, com certeza que também viveu os seus dramas e tormentos. Pode partilhar com os nossos leitores?
JG: – Efectivamente, não me têm sido alheios diversos momentos difíceis. Recordo a sucessão difícil e demorada de D. João Evangelista, venerado como figura de aveirense amigo e acolhedor, sempre atento aos problemas dos seus patrícios. Aconteceu em 1958. Dado o precário estado de saúde de D. Domingos da Apresentação Fernandes, que fora seu Bispo Auxiliar, esta tardou em ver o seu desfecho. Afinal, a Santa Sé tinha motivo para duvidar; passados quatro anos, o prelado acabaria por falecer inesperadamente, não sem ter desenvolvido uma contínua actividade pastoral de fronteira. Foi ele que, em 1960, tendo consciência dos inconvenientes geográficos da paróquia de Requeixo, desmembrou parte do seu território, criando a paróquia de Nossa Senhora de Fátima. Houve incompreensões e desentendimentos, que muito fizeram sofrer mas que mais tarde seriam sanados; no futuro, a instituição da freguesia civil veio dar razão ao bispo de Aveiro.
D. Manuel de Almeida Trindade continuou, embora em moldes diferentes, a acção que havia sido encetada. Sucedeu que, no seu tempo, em 25 de Abril de 1974 houve a revolução político-militar, que abateu a Ditadura. Os meses seguintes foram de turbulência social, até se encontrar o rumo para Portugal. Vivemos horas de desassossego, com ameaças de assalto ao Seminário de Santa Joana e à Casa Episcopal; porém, tudo passou, embora com sofrimento.
Desde Janeiro de 1988, que temos como bispo de Aveiro D. António Marcelino. Só ele poderia responder a esta pergunta; todavia, não será ousadia da minha parte dizer que aquilo que mais o faz sofrer com amargura – como a mim próprio – é o facto de alguns sacerdotes terem abandonado o ministério, permanecendo embora como bons cristãos e colaboradores das paróquias e da Diocese. E, por tal prisma, isto é consolador.
Poderia continuar; todavia, a conversa vai longa. Muitos dos nossos leitores, ao olharem para estas recordações, tirarão do segredo da sua memória outros episódios que, como comunidade diocesana, vivemos não só entre tristezas e angústias, mas também entre alegrias e esperanças. Resumindo, direi que valeu a pena a restauração da Diocese de Aveiro; com o fogo e a energia do Pentecostes, iremos continuar… em nome do Senhor.
