O que ela meditava no seu coração

LIVRO “– E o que são estas ervas?

– Essas são ervas daninhas, é o joio.

– Mas são parecidas com o trigo…

– Pois são; é que o trigo e o joio são de espécies muito parecidas. Mas a farinha do joio não se pode comer porque é venenosa.

– E porque é que não o cortaram, se pode fazer mal?

– Porque se o cortassem, filho, como é tão parecido com o trigo, podiam confundi-los e, sem querer, cortar também trigo. Portanto, esperam pela altura da ceifa, quando são mais fáceis de distinguir. (…)

O Jesus ficou pensativo, a olhar para as espigas, inclinadas som o peso dos grãos e alaranjadas pela luz do fim da tarde. Depois, muito sério, olhou para mim e disse:

– Pois eu quero ser trigo, mãezinha.”

Este excerto de um diálogo entre Jesus, menino, e sua mãe é retirado de “As Palavras Caladas. Diário de Maria de Nazaré”, do padre Pedro Miguel Lamet, jesuíta espanhol. O autor, como afirmou numa entrevista, escreveu este livro por ousadia, porque “tinha lido tantas vezes o Evangelho e tantas vidas piedosas de Maria, que pensava: «Isto não parece uma mulher, parece uma esfinge, parece que não sente, que não sofre, não parece um ser humano»”. Por outras palavras, é preciso humanizar Maria, porque o cristianismo é a fé num homem, filho de Deus e também de Maria. “Só as ideologias não precisam de mãe”, escreve Vasco Pinto de Magalhães, no prefácio, citando Karl Rahner.

Temos, pois, um livro na primeira pessoa, um diário, uma porta aberta para aquilo que Maria guardava e meditava no seu coração. Da sua leitura vamos percebendo que muito do que Jesus fez e disse aprendeu com a sua mãe, como a parábola do trigo e do joio. Claro que isto é ficção. Mas não repugna nada se assim tivesse sido, como o próprio autor esclarece no final do livro: “Sempre fiel às informações que possuímos e à mensagem evangélica, quis, no entanto, recriar a traços largos este quadro que nenhum de nós viu, mas que toda a gente é livre de imaginar, o da vida desconhecida de Jesus, na qual o papel principal pertencia à mãe, como acontece na vida de todas as crianças”.

As Palavras Caladas.

Diário de Maria de Nazaré

Autor: Pedro Miguel Lamet

Editora: Tenacitas

286 pág.