O mundo interior de Jesus brilha no seu rosto, sobretudo na paixão dolorosa e na hora da expiração: amor de doação que é rejeitado, determinação firme e decidida de credenciar o que sempre havia defendido, autodomínio sereno face às provocações dos inimigos, clamor de ajuda ante o sofrimento incontido, certeza absoluta e confiança filial no Pai que nunca o deixa abandonado.
O rosto do crucificado vai plasmando estes sentimentos de forma visível e interpelante. Face a ele, os circunstantes adoptam várias atitudes como reacção. Uns riem-se sarcasticamente. Outros batem no peito em sinal de arrependimento. Alguns choram compungidos pelo inocente que foi condenado e dão sinais de manter não se sabe que expectativas. Um outro – o centurião – confessa reconhecidamente: “ De facto, este homem era mesmo o Filho de Deus”.
A confissão do centurião é resultado de um processo denso, embora breve, iniciado possivelmente na noite em que Jesus esteve na prisão e concluído no momento do último suspiro. Encontrando-se frente a Ele e “ao vê-lo expirar daquele maneira”, a sua intuição sente-se confirmada pelos factos e declara, cheio de convicção: Jesus é o Filho de Deus.
Esta declaração faz parte da leitura da situação vivida e da novidade que ela comporta. O centurião – distinto oficial romano – representa o mundo dos pagãos que chegam à fé e deixam de “adorar” os ídolos do poder, da magia, do positivismo legal, do relativismo ético, do subjectivismo de conveniências, do culto do egoísmo, da crença privatizada, assumindo convictamente a perspectiva de sentido da vida proposto por Jesus Cristo.
As mulheres presentes no Calvário já podem voltar para os seus locais de trabalho e missão – a Galileia, donde procediam – pois é aí que o Senhor quer ser servido e o Evangelho tem de ser anunciado.
José de Arimateia e Nicodemos – dois admiradores discretos de Jesus – vencem as hesitações e apresentam-se em público a prestar-Lhe as honras rituais prescritas pela lei judaica, impedindo assim a desonra suprema, a sepultura na “vala comum”.
A cortina do Templo rasga-se completamente, abrindo todos os espaços de acesso a Deus e mostran-do a falência do sistema religioso-político-económico montado pelos judeus.
O projecto de Jesus contrasta radicalmente com as linhas programáticas deste sistema. A prová-lo, estão os sinais mencionados que ficam como referências imprescindíveis para os cristãos.
Por isso, o amor de Deus-Pai é a fonte da fraternidade universal; a verdade gera a liberdade responsável; a dignidade humana é comum a todas as pessoas, sem discriminação; os bens da natureza, da cultura e do trabalho constituem património da humanidade que deve estar ao serviço de todos, sendo acessível a cada um; o mundo inteiro é dom que cada geração há-de cultivar para o poder transmitir, mais humanizado, à geração vindoura; a convivência entre pessoas e povos constitui uma das primícias do futuro que Deus nos oferece no seio da sua família.
O centurião romano capta a novidade de Jesus, a partir do que observa e contempla, a partir do bom uso da capacidade de ver e reflectir, a partir do controle emocional e afectivo que lhe abre “as portas do coração”. Encarregado de garantir a morte – Pilatos chama-o para se certificar do que havia acontecido a Jesus –, deixa-se condoer e começa a sentir e a ver com o coração, a descobrir a nobreza das atitudes do crucificado, a apreciar a sua humanidade, a admirar a sua tenacidade paciente, a suspeitar e admitir a sua filiação divina.
“Um coração que vê” – afirma Bento XVI, na sua recente encíclica – torna-se o programa do cristão, tal como foi de Jesus, do bom samaritano e de tantos outros ao longo da história. “Vê onde há necessidade de amor e age de acordo com isso”. Espontânea ou organizadamente, conforme as circunstâncias e os recursos.
Ver o rosto de Jesus na cruz é sentir-se solidário com os crucificados da terra, é dar ânimo aos “vencidos da vida”, é propor a verdade por inteiro aos relativistas “amantes de meias verdades”, é proporcionar um sentido nobre para a vida a todos os que se contentam com os mínimos éticos e anseiam por situações em que usufruam o máximo de satisfação. Para o cristão, a cruz da paixão é a cruz florida da ressurreição.
