António Rego, jornalista e padre, abriu com uma comunicação a exposição “O sentido da vida: Que horizontes?” (ver CV de 5 de Abril). No final, acedeu a responder a algumas perguntas do Correio do Vouga, sobre a relação do trabalho artístico com o Transcendente.
Da exposição “O sentido da vida: Que horizontes?” o que realça?
Gostava de realçar a minha surpresa desta iniciativa ter convidado gente tão diferente e eles terem percebido, no conjunto dos quadros, a ideia que estava aqui, que era a procura do sentido da vida, com uma expressão mais transcendente ou menos, mais próxima do real, mais próxima da inquietação e da dúvida, da desordem, até, mas que é uma busca do sentido da vida. Nestas 40 obras, no fundo, expressam-me muitas das nossas inquietações e procuras, mesmo em relação ao transcendente.
A questão do sentido é uma ponte para o transcendente?
Foi muito feliz esta palavra “sentido” para arranjar linguagens e um mote comum para artistas e sensibilidades diferentes.
A Arte Moderna é capaz de dizer Deus?
É capaz de dizer Deus com a mesma limitação com que Arte Antiga dizia. Criámos a ideia de que um grande mosteiro gótico respirava espiritualidade. Mas podemos encontrar essa respiração de espiritualidade, e portanto de Deus – dizer Deus é algo muito complexo – na Arte Moderna. Nenhuma arte disse completamente Deus. Aproximou-se. E a Arte Moderna não tem menos capacidade de se aproximar de Deus, no seu expressar de transcendente, do que a Arte Antiga.
Claro que há Arte Moderna que não vale nada e também há Arte Antiga que não valia nada. Ou melhor, alguma só vale porque atravessou os séculos.
Os artistas continuam despertos para o transcendente?
Existe em todo o mundo, não só em Portugal ou em Aveiro, uma geração de artistas, na pintura, na escultura, na arquitectura, que tem um discurso religioso interessantíssimo. Porquê? Porque tem muito a ver com o nosso tempo. Tem a ver com o que sentimos hoje. A arte é expressão de cada época e enquadra o religioso nesse sentir do homem de hoje.
De que modos se expressa o religioso?
Há luzes, há sombras, há desenhos, há inquietações, há procuras, há felicidades que se expressam nas obras. Tal como esta sala tem um discurso de envolvência por ser um auditório, uma igreja tem um discurso de Deus. Há artistas, sobretudo com sensibilidade cristã, que expressam nas cores do nosso tempo – e não apenas nas convencionais – e com as volumetrias que nós temos. Nova Iorque é uma cidade que desenha o nosso tempo. Uma catedral, feita hoje, deve desenhar também, tal como a cidade, o nosso tempo.
Parece, no entanto, que a arquitectura moderna deu forma às Igrejas, enquanto a música moderna ou as artes plásticas modernas ficaram de fora.
Não são tão visíveis dentro da Igreja, até porque as pessoas têm no seu imaginário referências clássicas. Têm dificuldade em transpor o religioso do passado para o presente. Mas isso não nega que existam hoje formas de expressar o religioso com a mesma profundidade que as artes antigas.
Pode dar um exemplo?
Muitos. Posso falar de Nuno Teotónio Pereira, do ponto de vista da arquitectura, posso falar da igreja do Sagrado Coração de Jesus em Lisboa, da Igreja de Siza Vieira, em Marco de Canavezes. Entramos ali dentro e sentimos que há uma modernidade, uma expressão do nosso tempo e, ao mesmo tempo, do religioso.
Com a particularidade de alguns artistas não se identificarem com a Igreja, como é o caso de Siza Vieira…
Na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, os vitrais são de Almada Negreiros, que não se identificava com a Igreja. O que interessa é que sejam capazes de transmitir o transcendente da forma que o sentem e para utilização numa igreja, obviamente. Os problemas, muitas vezes, são mais funcionais do que estéticos, apesar de haver igrejas de mau gosto. Mas também há muitas igrejas barrocas, românicas e góticas de mau gosto. Não é o moderno que faz o mau gosto.
• A exposição “O sentido da vida: Que horizontes?” está patente na antiga Capitania, em Aveiro.
• No dia 20 de Abril, às 21h30, D. Manuel Clemente, Bispo Auxiliar de Lisboa, profere no local uma conferência sobre o sentido da vida à luz da arte cristã.
