O Seminário recomeçou!

O Seminário recomeçou. Este ano com quatro seminaristas maiores e três na Comunidade residente do Seminário de Santa Joana Princesa. Iniciamos também com Esperança e com um projeto renovado do Pré-Seminário, acolhendo um novo grupo do ensino secundário e reforçando o acompanhamento com jovens de maioridade, em contexto universitário ou no mundo do trabalho. Estamos a programar atividades de promoção vocacional nos arciprestados de Ílhavo e Vagos, junto dos movimentos, serviços diocesanos e outros contextos que se apresentem como oportunos. No fundo, todos os anos repetimos o mesmo: acolhemos, vemos partir, organizamos encontros, vamos a escolas, grupos juvenis, catequeses e catequistas, percorremos paróquias, arciprestados, encontros arciprestais do clero, etc., etc. Tudo isto sem existência de um serviço que pense uma cultura vocacional e nesta diocese que ainda não privilegia a dimensão vocacional de uma forma integral e transversal em toda e cada uma das ações pastorais.
Por vezes parece que o mais fácil é ‘mandar pescar’ jovens que sejam solícitos e que aceitem entrar no Seminário e depois logo se vê; o mais difícil será sempre a ousadia eclesial de um novo perfil do padre diocesano que corresponda melhor às necessidades da Igreja neste tempo (mas esse ultrapassa-me de momento!). No perfil que a Igreja hoje mantém, vamos trabalhando e cultivando a identidade presbiteral de sempre, motivando jovens para uma configuração com Cristo na Sua Missão. Há quem, na fé, se encontre chamado e responda, há outros que mesmo rezando “seja feita a Tua vontade” nunca a querem verdadeiramente discernir.
Este ano já falecerem três padres que, por diversos motivos, me eram próximos: o P.e Rogério Oliveira, o P.e Manuel Marques Dias e o P.e José Soares Lourenço. Gerações diferentes mas com um ânimo sacerdotal profundo. Os três deixaram familiares, amigos e comunidades com saudades e ao mesmo tempo muita gratidão. São insubstituíveis! Preocupa-me que sejam facilmente substituíveis quando por vezes se pensa numa pastoral para cumprir ‘missas’, e talvez por isso também seja difícil vivermos uma cultura vocacional diferente, porque não alcançamos a verdadeira necessidade e importância, neste caso, do ministério ordenado.
Por vezes fica a pergunta: o que fazer para que surjam mais padres? Penso que passará pela consciência que se a catequese não colocar com naturalidade a dimensão vocacional não está a ser catequese porque não educa a uma fé que implique e leve a uma resposta de vida; penso que uma pastoral juvenil que não coloque a dimensão vocacional com naturalidade pode correr o risco de perder e se confundir com uma atividade juvenil, mais ou menos apostólica; penso que o voluntariado juvenil, missionário ou social, tem uma potencialidade enorme para que no serviço se viva uma configuração com Cristo na vida doada; penso que uma pastoral litúrgica que aprofunde os diversos ministérios que lhe estão associados numa dimensão vocacional contém, naturalmente, a linguagem do serviço própria ao ‘ser padre’; penso que o ensino religioso escolar tem, pelos conteúdos próprios da disciplina e pela proximidade do professor, uma dimensão vocacional associada e uma sensibilidade natural para o acompanhamento. No fundo, penso cada vez mais que a nossa pastoral, se não faz discípulos apaixonados e testemunhas da esperança, não é vocacional, porque muito menos é ação da Igreja, porque nem cristã se poderá chamar.
O Seminário recomeçou, com menos alunos, é certo, mas com a mesma vontade de querer acompanhar e ajudar a discernir. Numericamente poderá ser um fracasso, para os Velhos do Restelo será uma confirmação de profecias da desgraça, para os mais banais será uma falta de promoção vocacional, mas eclesialmente, para os mais atentos, será uma oportunidade para repensar as nossas prioridades, a Igreja que queremos ser e que cultura vocacional e ministerial estamos a alimentar.

P.e João Alves
Reitor do Seminário Diocesano de Aveiro