Interessa-nos a NÓS, cada vez menos, por “pressa” existencial: o DEPOIS?… Após tudo o que vivemos, fica sempre a questão fundamental: eu existo, mas existo para a Morte, a cada instante e no momento derradeiro. Este é o único problema importante. Fora dele, tudo o mais é apenas acidente e distracção.
Importante por isso, aqui, onde não há o “relativo”, mas a “relação”; é o particípio “terminado”. “Terminado”, que pode significar, de um lado, o que já terminou de existir, ou finalizado; e, de outro, o completo, o que chegou à sua plenitude. Assim é a morte que eu quero para mim em Jesus Cristo. Não tenho “destino”, mas “destinação”. A Ressurreição é o meu futuro. Só levando a sério o duplo caracter “terminal” da Morte, reservamos uma disposição de diálogo honesto para com todo o ser humano.
Mas aí vem a segunda parte do problema: o rio da vida. Nesta contextualização, a morte não é apenas o fim, o nada, sendo o mais radical fim e nada da história de uma vida. Eu e a minha circunstância; mais aquilo que faço com ela. Por isso, não é anedótica: a hipótese Inferno, como o “Absoluto Menos”, por mim escolhido no antes do meu tempo terminar. O rio da vida leva-nos para o mar; sempre, porém, podemos nadar um pouco mais para uma margem ou para outra… ou para o centro, ou até boiar, se assim preferirmos; podemos aproximar-nos mais de uns do que de outros, na correnteza que nos leva a todos. O infantil é saudável, o infantilismo é uma doença.
No decorrer da reflexão, transcrevo uma interpelação feita a André Torres Queiruga, teólogo espanhol, e sua notável resposta síntese. – Seu livro sobre o inferno questionou muita gente, por parecer que o senhor aceita a hipótese de não existir inferno… “A minha resposta é uma resposta graduada: 1) Deus não castiga: isso me parece evidente; 2) Seja o que for, a condenação é negatividade humana que a Deus lhe dá pena, porque nos prejudica a nós e não a Ele; 3) Deus quer absolutamente salvar-nos na medida em que lhe permitirmos; 4) Penso que não há ninguém absolutamente mal (“demoníaco!”, diria Kant), e que, por conseguinte, ninguém se nega totalmente a ser salvo; 5) Hipóteses: Deus salvará em cada pessoa tudo o que ela lhe permitir; o outro serão possibilidades eternamente perdidas (o que é horrível: “infernal!”). Dito de maneira mais imaginativa: as ovelhas e cabritos da parábola do juízo não são duas classes de pessoas, senão duas dimensões fundamentais em cada pessoa”.
Somos responsáveis por nossa própria felicidade, pois a felicidade não depende de causas cegas e independentes de nós mesmos. Nós preparamos, cultivamos e elegemos nossos próprios estados de felicidade ou de desencanto. O jesuíta uruguaio, Juan Luis Segundo (m.1996), escreveu: “O ‘Inferno’ é – nada mais, nada menos – a dor com que atingimos os outros, ou a que, podendo-a evitar, não o fazemos por temor, preguiça ou costume; numa palavra: por egoísmo”. Cabe, talvez, duas notas de roda pé, para encerrar a reflexão (?). Primeira, o que importa não são os resultados! Segunda, a coerência a ser procurada não é a dos factos, mas a dos seus significados.
Com estes incisos somos como que atingidos, no bom sentido, por duas verdades de Fé: Só o Amor ensina a ver e é inventivo; a Graça é livre e libertadora. Aí o mundo, e nós dentro, podemos não mudar, mas os nossos olhos já mudaram o Sentido da Morte e da Vida por sinergia.
