O síndroma da vassoura

A Árvore de Zaqueu As parábolas do evangelho de hoje são consideradas muito representativas do núcleo do Evangelho – em especial, a do «filho pródigo». O traço dominante é a revelação de Deus como «alegria de procurar», «alegria de encontrar», «alegria de conviver», «alegria de só querer bem».

Particularmente pitoresca é a da mulher, de vassoura nas mãos, revirando a casa inteira metodicamente, sem descansar enquanto não encontra o que procura. E à alegria do sucesso, acresce o prazer de uma casa limpa e da festa com os amigos…

Tudo obra de uma vassoura adequada, em mãos tão decididas como criteriosas e cuidadosas. Para procurar a moeda de oiro, não vamos partir as porcelanas; nem vamos lançar o lixo noutros cantos, e muito menos para o quintal do vizinho. E se as crianças parecerem estorvar, não as vamos correr com o cabo da vassoura. Nem varremos o quintal com a mesma vassoura da sala de jantar ou de estar. E se acharmos bem emprestar a vassoura ao vizinho, é ofensivo e contraproducente passar-lhe a vassoura mais velha ou, pior ainda, escavacada. Muito menos devemos impor aos outros o nosso estilo de vassoura e de varrer, por muito que a casa dos outros se mostre suja e desarrumada. O ideal é perguntar com amizade: será que lhe faz jeito a minha vassoura? Quer experimentar aquela espécie de vassoura “último grito”, que o amigo até se diverte a observar?

E não vamos aprofundar algumas formas patológicas do síndroma da vassoura: desde o querer dar nas vistas “montado numa vassoura” (entram aqui os “efeitos especiais”); até ao fazer negócio exportando vassouras em peças soltas, tão sofisticadas que quem as procura montar só consegue construir metralhadoras. É que a vassoura também pode ser vista como símbolo agressivo de poder (autoridade e poder são coisas distintas), uma forma perversa da «varinha mágica» nas mãos dos domadores de feras, dos pesquisadores de veios de água, ou dos pastores e condutores de orquestra…

Hoje, Jesus aparece como o trabalhador incansável para um encontro alegre do Homem com Deus. Utilizando os melhores conceitos humanos para juntar amor, perdão, justiça e preocupação maternal, dá a Deus a imagem de Pai, suficientemente corajoso para exigir que o amor dos filhos tenha a marca transparente da liberdade. À imagem desse Pai, é que Jesus tem a coragem de “arregaçar as mangas”. Sem uma boa varridela, de tempos a tempos, cobrem-se de pó e de esquecimento grandes e pequenas preciosidades – mas graças à vassoura, descobrimos que até os piores momentos da nossa vida escondem surpresas bem valiosas.

Se não se lançasse a varrer a vida, «o filho pródigo» não daria conta do amor que tinha perdido e do egoismo em que se deixara atolar. Mas também lhe valeu a sólida educação familiar, dando-lhe os alicerces de amor e confiança resistentes a toda a prova.

Será que a nossa varredora não sentia alegria pelas outras moedas de ouro ainda guardadas? Será que o pastor se deixou de interessar com as «noventa e nove» ovelhas bem a salvo? Será que o Pai do «filho pródigo» se sentia infeliz com a companhia do outro filho? De certeza que Jesus, ao ilustrar a sua grande missão de «vir ao mundo para salvar os pecadores» (2.ª leitura), pegou naquele sentimento tão forte que Deus deixou nos homens, «quando os criou à sua imagem e semelhança»: nunca estamos satisfeitos com o muito que possamos ter ou com o muito que fizemos. Se os «noventa e nove justos» e o «filho fiel» do evangelho não se esforçarem continuamente por valerem cada vez mais, passarão a ter de justos apenas o nome, à semelhança dos que se chamam “trabalhadores” para encobrir que não trabalham; ou se chamam “democratas” para melhor esconder o egoísmo.

Não anda na justiça quem fica a dormir sobre a riqueza acumulada (Lucas 12,16-21), quantas vezes «à custa dos despojos dos pobres» (Isaías 3,14-15).

Jesus veio claramente afastar-nos de especulações sobre um Deus punitivo: Deus quer que os homens saibam de tudo tirar partido para gerar a beleza e o bem, com a coragem de discernir e discutir publicamente o que é bem e o que é mal.

Seria o «filho fiel» um bom irmão? Afinal, não sabia varrer os preconceitos, presunções, comodismo e frustrações, próprias de quem não confiava numa conversa aberta com o pai e com a família. Cobriu de pó e de lixo as coisas valiosas que o pai e «o mau irmão» lhe deixaram. Só para alguns é que aparecia como um filho bem comportado.

O pior é quando filhos como estes são chamados a gerir a casa, sem nunca terem varrido e nada interessados em varrê-la como convém e para o que convém. Aplica-se a eles o que disse o profeta Isaías: «Povo meu, os que te guiam destroem o caminho que deves seguir» (3, 4-12). Confundem varrer com “andar à vassourada”, perdendo cada vez mais o tesouro que faz falta a todos e impedindo os filhos de ocupar um lugar produtivo na família.

Manuel Alte da Veiga