Poço de Jacob – 47 Terminámos o Ano Sacerdotal, cheio de desafios dirigidos à comunidade cristã e não cristã sobre a figura do sacerdote católico. Debates, notícias, ataques, escândalos verdadeiros e produzidos pelos meios de comunicação social. Muitos padres viram-se envolvidos na reflexão sobre a sua grandeza e miséria. Pensamos que existimos enquanto tal não porque sejamos superiores aos demais por sermos escolhidos mas por sermos escolhidos para servir a vida ao Povo de Deus.
A única coisa que torna um homem grande e superior, no exercício do seu sacerdócio comum que vem do Baptismo, não é ser padre, casado ou solteiro, homem ou mulher. O que nos torna grandes e superiores, sem deixarmos de ser pequeninos, é a santidade. Dizia o cardeal Christoph Schonborn em Ars, no retiro a 1200 padres, em 2009, e condensado no livro “A Alegria de Ser Padre” (não deixem de o ler todos leigos e padres), que o que somos todos é sacerdotes pelo Baptismo. Que somos todos chamados a edificar a comunidade. Que somos todos chamados a servir, a orar, a amar e testemunhar o Evangelho da Ressurreição como nos disse o Papa, na sua visita a Portugal. Que Deus, ao chamar-te para padre, não te coloca acima dos outros para que te consideres superior à comunidade de onde fostes tirado e por quem fostes gerado na Fé. Que até podes ter o título de doutor nas melhores universidades de Roma e dar aulas nas melhores escolas e ser um teólogo afamado e comentado…
Diz o cardeal, com graça e verdade: “Se acontecer que nos levamos demasiado a sério e nos esquecemos de que as pessoas nos amam por causa de Cristo de quem somos instrumentos e não por sermos «o Sr. Padre Doutor», ou «sua eminência» cardeal ou bispo, lembremo-nos de que, para entrar em Jerusalém e estar no meio do povo, Jesus serviu-se de um burro”. É nesta humidade e simplicidade de instrumentos que Deus nos quer, padres e leigos.
O melhor meio de pregar não são só as nossas palavras bonitas, bem preparadas e por vezes inacessíveis à compreensão das pessoas, mas a nossa transparência de crianças diante do Deus por quem nos apaixonamos. O Povo sente isso com a nossa correria, com a Missa mal preparada, como um serviço social de chegar a correr à sacristia para nos paramentarmos e sair tão depressa quanto entramos, no fim da missa, por termos outra já a seguir… Não comunicamos nada. Ouvi um padre uma vez dizer a uns colegas: “Vamos à faina”. Como se celebrar não fosse encontro com Deus e com os irmãos. Dá-se mais valor às intermináveis reuniões, muitas vezes dispensáveis…
Porém, estou convencido de que, antes ou depois da Missa, ou num momento mais tranquilo do dia, o que mais move a crer é o povo ver o seu padre, de joelhos, ali, longamente perdido diante do sacrário. Isto vale mais que mil palavras. Isto arrasta e atrai para Cristo. E isto suaviza o coração do padre, por vezes sobrecarregado de serviços, tentações e perseguições… Um padre de joelhos pode mover o mudo sem dar por isso.
Seria bom se tomássemos o essencial a sério, pois se em algo nos distinguimos dos restantes cristãos, é no muito termos recebido para que eles possam beneficiar. Ninguém dá o que não tem. Rezar, no padre, não é obrigação de voto ou promessa…É só obrigação de amor, por Cristo e pelo Seu Povo, a Sua Igreja.
P.e Vitor Espadilha
