Bombeiros Novos comemoraram 100 anos no próximo Domingo CORREIO DO VOUGA – Como começou a Companhia Voluntária de Salvação Pública Guilherme Gomes Fernandes, que todos conhecemos por Bombeiros Novos (BN)?
ALBUQUERQUE PINTO – A Companhia Voluntária de Salvação Pública – assim é o seu nome original, que deverá ser mudado com a revisão dos estatutos – nasceu devido a uma cisão nos Bombeiros de Aveiro. As seguradoras e a população fizeram uma exposição à Câmara, questionando a eficácia dos bombeiros que então existiam, ou seja, os actuais Bombeiros Velhos, que na altura estavam a passar por uma crise.
Esta companhia teve como fundadores alguns dos bombeiros que estavam na outra corporação, com vista a uma maior eficácia no combate dos sinistros. O processo de formação culminou no dia 30 de Novembro de 1908, às 10 da noite, hora a que foi assinada a primeira acta.
Como é que surge Guilherme Gomes Fernandes, que dá nome à corporação?
Guilherme Gomes Fernandes é o ex-libris dos bombeiros portugueses. É o maior bombeiro português de todos os tempos. Não é aveirense (ver texto nesta página). Era uma pessoa com possibilidades financeiras. Abraçou a paixão dos bombeiros e notabilizou-se como bombeiro voluntário e dirigente de bombeiros no Porto.
Como é que chegou a patrono?
Parte da sua fama deve-se à glória que trouxe para os bombeiros portugueses durante uma competição de bombeiros em França. Classificou-se em primeiro lugar, com tanta distância para os segundos que o júri decidiu não atribuir mais prémios.
No regresso de França, parou em Aveiro, enquanto no Porto se preparava uma apoteótica recepção. Foi hóspede dos Bombeiros Velhos.
Quando a nossa Companhia foi fundada, já tinha morrido, mas tinha prestígio a nível nacional e internacional e o seu nome foi adoptado.
Os BN nem sempre estiveram sediados no Largo Maia Magalhães, na Vera Cruz…
Não. A primeira sede na foi Rua da Corredoura (na traseiras da Misericórdia), hoje Batalhão Caçadores 10. Em 1912, passou para a Ponte-praça Luís Cipriano, hoje Praça Humberto Delgado, perto do banco BPI, e abriu-se uma pequena sucursal na Rua do Sol (hoje, Rua Sargento Clemente Morais). Em 1922, concluiu-se a construção de um quartel no local onde estamos. Esse quartel foi demolido para dar origem ao actual, em 1983…
…Que hoje é insuficiente…
Este quartel, à época, foi considerado uma mais-valia para os BN, mas hoje é manifestamente insuficiente. Desde 1995 temos levado a cabo diligências para um novo quartel, estrategicamente adequado à zona de intervenção própria e que tenha as características que se coadunem com as actuais necessidades da população.
Qual a zona de acção dos BN?
Actuamos em todo o concelho de Aveiro, mas há um acordo operacional entre as duas instituições de Aveiro, de forma que nós ficámos com a parte norte, que tem sete freguesias (Vera Cruz, São Jacinto – onde existe um destacamento com todos os meios para a primeira intervenção –, Esgueira, Cacia, Requeixo, Eixo e Eirol) e os Bombeiros Velhos com as sete do sul. Isto é um acordo. Actuamos sempre em qualquer sítio, onde houver necessidade. O normal é as duas corporações reponderem à chamada pelo CDOS (Comando Distrital de Operações de Socorro). De resto também ac-tuam os fora do concelho. Há uns anos fomos para o Algarve, em reforço dos bombeiros daquela região. Ir para a Beira Alta ou para a Beira Baixa, isso é todo o ano. Não somos bombeiros de bairro. Somos bombeiros distritais e nacionais.
Porque é que este quartel é “manifestamente insuficiente”?
Por várias razões. Primeiro, somos um corpo de bombeiros numeroso [cerca de 120 efectivos]; toda a gente tem a sua especialidade, há várias sub-especialidades, todas as típicas de bombeiros, mais as excepcionais como os mergulhadores.
Com o equipamento e viaturas que é preciso ter e manter, andamos todos aqui a acotovelarmo-nos uns aos outros.
Por outro lado, a situação geográfica não é a melhor. Para sairmos daqui é preciso atravessar a cidade. Ora, é indispensável que os Bombeiros tenham liberdade de acção, saindo rapidamente para os objectivos que lhes forem determinados.Com o bulício citadino, com frequência isso não acontece.
Como está o processo do novo quartel?
Formalmente qualquer atribuição de terreno por parte da Câmara Municipal para que possamos começar a elaborar o projecto. Estamos apenas no campo das promessas e negociações com terceiros (proprietários dos terrenos). Este processo tem sido muito doloroso e longo, já lá vão quase 10 anos em que andamos atrás de um terreno.
Já passou por várias localizações. Já esteve ali para as Agras, depois passou para trás do quartel da GNR (Rua de Sá). Recusámos esse terreno logo à partida. Para estarmos encalacrados no meio da cidade, ficamos aqui e escusamos de gastar meio milhão de contos. Isto não é como comprar uma camisa ou um par de sapatos. Agora fala-se, desde há três ou quatro anos, de um terreno contíguo ao Cemitério de Esgueira, em frente à Mitsubishi. É um belíssimo terreno. Tem boa acessibilidade. A partir dali saímos para qualquer sítio da cidade com toda a facilidade, pela EN 109 e A 25.
Era a melhor prenda que podiam dar pelos 100 anos do BN?
Era. Tenho esperança que o Sr. Presidente da Câmara traga a escritura para assinarmos no dia do aniversário. Tenho esperança. Mas é só esperança. Não tenho qualquer indício ou ideia de que isso vai a acontecer. Mas a esperança é a última a morrer.
Como imagina a nova sede?
A CMA já se disponibilizou para fazer o projecto. O Arq. João Ferreira [da CMA] revelou-se com apetência para desenhar a sede. Eu já o levei a tudo quanto é quartel novo, para conhecer o formato e o que convém e não convém. Quando se faz uma obra nova, o comandante a seguir diz: “Construíram isto aqui e isto tem este defeito e mais este, devia ser assim…” Visitando os quartéis, temos tentado chegar a um formato sem defeitos. Não é possível, mas podemos aproximar-nos.
Há um decreto-lei que regulamenta isto. O quartel não pode ter o formato que vier à cabeça do presidente da direcção ou do comandante. Se sairmos do que a lei determina, ficamos sem a comparticipação do Estado.
Quanto é essa comparticipação estatal?
Depende do número das secções que a corporação tenha. Nós devemos apanhar o máximo porque temos uma secção náutica e mergulhadores, além do destacamento de São Jacinto.
Quanto poderá custar o novo quartel?
Tenho ouvido dizer que pode ser algo como 3,5 milhões de euros. A comparticipação do Estado pode ir até 60 por cento. O resto tem de ser associação suportar.
Já têm planos para angariar os 40 por cento?
Não. Vamos apelar à generosidade popular, mas não vai chegar. Não sei onde vamos buscar o dinheiro, mas que vamos fazer o quartel, vamos. Isso garanto.
Ao longo destes 100 anos, os BN devem ter escrito páginas gloriosas e devem ter outras mais tristes…
Felizmente, todos os homens e mulheres que por aqui passaram foram bons, abnegados, deram-se voluntariamente, segundo as regras do associativismo.
Quando convocámos autoridades e associações para planear as comemorações, todos ofereceram gratuitamente o seu trabalho. Isso abona os bombeiros. É o reconhecimento público do nosso valor. Foi muito gratificante para nós. De resto, em termos de condecorações, temos tudo a que temos direito. No dia 30 [próximo Domingo], vamos ser condecorados com a Medalha de Protecção e Socorro, grau ouro, proposta pelo Governador Civil [no momento desta entrevista esperava-se a confirmação da presença do ministro da Administração Interna], e vamos receber o Crachá de Ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses. É a condecoração máxima.
Quanto a momentos tristes, há a lamentar a morte de um bombeiro, o Paulo Rangel, em 1998. Recordámo-lo com um memorial nas paredes do quartel.
Comemorações no próximo Domingo
Desfile na Avenida com viaturas e meio milhar de elementos
As comemorações começaram em Janeiro de 2008, mas têm no próximo Domingo o momento mais alto. Do programa destacam-se os seguintes eventos: Exposição estática de material (a partir das 9h40, em frente ao quartel); mostra filatélica, na Assembleia Municipal de Aveiro, com emissão de selo e carimbo (abre às 10h); Missa do Centenário, na igreja da Vera Cruz, presidida pelo Bispo de Aveiro (às 10h); homenagem e atribuição de medalhas (15h20); desfile apeado e motorizado, com cerca de 500 elementos (início às 15h45; o desfile passa pela Rua Oudinot, Avenida Lourenço Peixinho, Rua Viana do Castelo e termina no Largo do Rossio); bênção de novas viaturas (17h) e sessão solene com condecorações honoríficas e galardões.
Quem foi Guilherme Gomes Fernandes?
Guilherme Gomes Fernandes nasceu na Baía (Brasil), em 1850, e morreu em Lisboa, no dia 31 de Outubro de 1902, na sequência de uma operação.
Estudou em Inglaterra, mas viveu no Porto desde os 19 anos. Falava cinco línguas. Oriundo de uma família de posses, financiou a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Porto, que foi a primeira organização portuguesa de bombeiros voluntários. Foi seu comandante de 1875 a 1885. Mais tarde, trabalhou para os Bombeiros Sapadores. Em 1894, em Lyon (França), ganhou um concurso de bombeiros que lhe deu imenso prestígio… e uma corporação com o seu nome, em Aveiro, seis anos após a sua morte.
Herói dos B. Novos
Paulo Fernando Rangel é o único soldado da paz dos Bombeiros Novos desaparecido durante uma missão. Aconteceu em 1998, em Alijó (Vila Real). O jovem bombeiro morreu quando a ambulância em que seguia se virou. Os BN recordam a sua memória nas paredes do quartel com uma fotografia e duas lâmpadas sempre acesas.
