Educar… hoje Para aguçar o espírito jornalístico de alguns e o interesse de todos, dois estudantes universitários deslocaram-se à Escola Secundária onde frequentaram o 12º ano, a fim de serem entrevistados por alunos do oitavo ano (entre os 13 e os 17 anos).
Em comum, os dois têm o facto de terem vindo para Portugal com o mesmo objectivo: estudar. Distingue-os a aprendizagem do português: o aluno timorense estudou no Seminário de Díli, onde aprendeu a língua do nosso país, além de ter frequentado um curso intensivo de língua portuguesa em Timor; a aluna ucraniana desconhecia por completo o idioma quando chegou a Portugal. Sendo casos de sucesso, tanto em termos linguísticos como escolares, surgem como exemplos aonde a perseverança e os projectos podem levar. Apesar de inúmeros portugueses partilharem da mesma atitude face aos estudos (e apesar de inúmeros imigrantes se distanciarem do percurso daqueles estudantes), tanto o Samuel (23 anos, no 4º ano de Engenharia Química da Universidade de Aveiro – UA), como a Olga (20 anos, no 1º ano de Engenharia Electrónica e Telecomunicações da UA) tiveram – e têm – de ultrapassar o grande obstáculo que não se coloca aos portugueses: a língua.
Em pouco mais de uma hora, os alunos-jornalistas perceberam que vivem numa sociedade diferente da dos seus entrevistados: o sistema escolar português difere, pelo apoio individualizado que lhes dá, pela relação mais afectiva entre alunos e professores, pelo menor grau de exigência em relação ao que se passa na Escola da Ucrânia. Também há diferenças nos métodos de trabalho, que não privilegiam unicamente a memória, como acontecia quando o aluno timorense frequentava a escola no seu país. E pelas condições tecnológicas, infinitamente superiores às das escolas dos países de que são oriundos os entrevistados. Depois, a curiosidade leva a perguntas sobre a adaptação a Portugal e a Aveiro, e sobre o dia-a-dia desses estudantes, com uma pronúncia diferente da dos aprendizes de jornalistas, mas que respondem prontamente, quando questionados, por exemplo, sobre o tempo dedicado ao estudo.
– E não acha que ter aulas das 9h às 20h é muito cansativo?
– É, mas é assim! Não se pode fazer nada contra isso.
– O que faz nos tempos livres?
– Não tenho tempos livres. Estudo.
A um aluno do oitavo ano parece excessivo estudar cerca de quatro horas diárias, levantar-se às seis horas da manhã, para correr antes de ir para a Universidade, ou não sair todos os fins-de-semana com os amigos.
De cada uma das entrevistas, há uma resposta que fixei:
– Que idade tens? [16 anos] Nunca pensaste: “Nos meus 16 anos, o que é que eu já fiz de importante na vida?” [Não.] Mais vale estudares agora, e depois poderás ser livre. (Olga Fedotova)
– Quando alguém gosta muito de uma coisa, arrisca tudo. Eu estudo muito, porque gosto bastante do meu curso. (Samuel Freitas)
Ambos os entrevistados, bem-dispostos e seguros do que querem, reflectiram sobre os estereótipos: o rapaz timorense poderá ser amigo de um indonésio, disse ao responder a uma interpelação, pois o que lhe interessa são as qualidades do outro; a rapariga ucraniana frisou que tanto há bons alunos portugueses como estrangeiros. Não é uma questão de nacionalidade, mas de atitude.
Será necessário dizer que nenhum dos entrevistados está deprimido ou traumatizado pelo trabalho? E preciso de acrescentar que o esforço compensa?
