Olho de Lince

A conversa estava animada. Cinco senhoras acabavam de almoçar, por entre uma conversa muito positiva sobre maridos. Ao que percebi, todas viviam uma vida familiar equilibrada e harmoniosa, contando os esforços dos cônjuges para assumirem as circunstâncias de esposas a trabalhar fora de casa todo o dia e toda a semana, com evidente necessidade de afazeres domésticos repartidos.

E cada uma admirava mais o que as outras contavam dos seus. “Rapazes desses não se encontram ao acaso!” – diziam à mais nova, que minimizava o elogio, devolvendo-o àqueles que tiveram de fazer muito esforço para se adaptar, porque “o meu já nasceu num tempo em que tinha de ser assim!”

Estava a achar demasiado bom encontrar, em plena capital, um lote tão excelente de esposas felizes com os seus maridos. E a surpresa acabou por vir, quando se tratou de equacionar o problema dos filhos. Só uma os não tinha – a mais nova. E depressa se percebeu qual a razão. A convicção era de que os filhos são um artigo de que se dispõe: deseja-se, procura-se; não se deseja, rejeita-se!

Aqui, dividiram-se as opiniões: “É fundamental contribuirmos para continuar a geração, ter com quem partilhar a vida, garantir quem nos possa apoiar na velhice… E não esperes para ser mãe-avó, que é muito complicado!” – dizia a maioria. Mas sempre apareceu quem concordasse com a jovem: “É uma prisão, as noites podem tornar-se complicadas, a angústia do futuro – com o mundo que temos – paira constantemente como uma escuridão que esmaga…!”

Não foi possível, nem será nunca, um acordo total: só a generosidade de quem ama para servir a vida compreende que a felicidade está no dar-se, no dar gratuitamente a mesma vida, aceitando-a como autónoma. O egoísmo depressa deixará de mãos, coração e casa vazia. E mais: o egoísmo a dois torna-se muito mais fortemente empedernido, resistente a todas as “ameaças” ao comodismo.

Q.S.