Olho de Lince

Foi providencial esta passagem pela urgência do hospital. Ocasião para ver: a angústia de pais, em busca de observação e tratamento para os seus filhotes; a ânsia de idosos, cientes das suas debilidades, receosos das consequências das mesmas, às vezes deixando transparecer uma imerecida solidão e abandono; o desconforto de jovens, que, porventura por incúria, se vêem privados de alguma liberdade de movimentos físicos…

Foi motivo de admiração por um “batalhão” de gente que, em domingo à tarde, está amarrado aos seus postos de trabalho, para que os males tratáveis possam ser remediados, se possa reacender em muitos a esperança, experimentem algum alívio aqueles que porventura estão já na recta final da sua vida. Vi dedicação, delicadeza, competência, mesmo quando alguns impacientes confundem incompetência com a demora necessária.

Todavia, foi a cena de ternura de alguém anónimo que me impressionou mais. Uma pequenita, com sinais de traumatismo facial, mirava a máquina de café, de chocolate…, e fazia perceber à mãe que queria uma bebida quente – e talvez necessitasse! Uma moeda era o suficiente. Se a houvesse! Porque parecia não haver.

Foi então que uma jovem se dirigiu à máquina, introduziu a moeda e carregou no botão; apresentou à menina a desejada bebida, retirando-se discretamente para o seu canto. Logo a mãe, solícita, recomendou que fosse agradecer à “senhora”. Acto contínuo, a pequenita levanta-se; e ouviu-se na sala um sumido “obrigada”.

Afinal, não havia moeda! Mas havia atenção aos outros, da parte daquela jovem discreta; havia reserva de gratidão, naquela mãe limitada de recursos; havia educação na pequena.

Q.S.