Questões Sociais As diferentes forças políticas e inúmeras «figuras notáveis» do país vêm-se caracterizando por uma omissão gravíssima perante a crise atual: deleitam-se a contestar os governos, a «troika» e outras instâncias; peroram sobre quase tudo; exibem orgulhosamente a sua superioridade intelectual e moral… Com esse orgulho, não «descem» aos problemas concretos nem formulam propostas consistentes. É certo que defendem, como imperativos, o emprego, o crescimento económico, a reestruturação ou renegociação da dívida soberana, a diminuição das respetivas taxas de juro…No entanto, partem do pressuposto que tudo isto é fácil de fazer, e que os governos não o fazem porque não querem; dão mesmo a entender que o atual governo português, como o anterior, deveria publicitar todas as diligências que vem realizando nos bastidores, mesmo correndo o risco de perda de credibilidade junto dos credores.
Entre as «figuras notáveis» sobressaem os comentadores e os «senadores», que se distribuem por quase todos os domínios do saber e de atividade. Incluem-se, nesta classe de «notáveis», algumas pessoas mais idosas que, em larga medida, contribuíram para a situação atual; incluem-se também jovens de todos os quadrantes, motivados para grandes mudanças que, em geral, não dizem quais são. Uns e outros pertencem a uma população altamente qualificada «como nunca existiu em Portugal».
Tudo seria bem diferente se tão grande capacidade intelectual fosse mobilizada a favor da proposta e da promoção de soluções viáveis para o país; melhor seria ainda se tal capacidade atuasse não só internamente mas também no exterior, junto de instâncias comunitárias e do FMI, bem como de organizações partidárias de âmbito europeu capazes de influenciar, a nosso favor, os nossos credores. A mobilização da capacidade intelectual é perfeitamente compatível com a discordância e com a própria contestação leal; porém, é incompatível com a redução da atividade cívica à contestação sistemática e permanente.
