Editorial A comunicação é primordial na realização humana, porque a pessoa humana é ser em relação. Os meios de comunicação social têm, por isso, importância capital para o desenvolvimento pessoal e social, carregam o ónus de deles depender em grande parte o conhecimento mútuo, o recíproco apoio, o intercâmbio de potencialidades e carências… Um sem número de perspectivas em que os MCS se tornaram cabouqueiros da aldeia global, força estruturante de grupos e povos, veículo de valores configurantes, vertebradores da personalidade.
Acontece, porém, que essa construção só é sólida quando integra as pessoas com a sua identidade própria, com a especificidade respeitada de cada um e dos diversos círculos intermédios. Promover a relação não é massificar, mas antes diversificar e consolidar a teia de relações, evitando a manipulação que a anula; nem muito menos violentar a partilha das riquezas pessoais.
O equilíbrio entre o interesse da construção do bem comum – único objectivo legítimo da comunicação, mesmo quando é denúncia – e a preservação da identidade pessoal e da sua dignidade é uma linha no fio da navalha. A todo o instante pode desequilibrar-se, o que acontece sempre que interesses e poderes ocultos subtilmente traçam estratégias de perversão da mesma comunicação. E, nessa altura, o que é um precioso bem da humanidade torna-se, quantas vezes, maquiavélico caminho de emersão de poderes avassaladores, individuais ou corporativos, ou de irracionais alucinações colectivas.
A liberdade de dizer será esse oásis de isenção que é preciso preservar dos apetites dos poderes instituídos. A liberdade de expressão é essa via que permitirá sempre que cada um se comunique segundo as suas potencialidades em benefício do proveito comum. Da dignidade da pessoa humana e da missão reguladora do Estado no que toca a esta concertação de informação-comunicação decorrem os princípios a estabelecer, para uma ética da comunicação, afim de que a mesma resulte em promoção da relação.
Não parece sequer discutível a consciência de que uma infoética é precisa, e depressa, para nos salvar da “selva” da comunicação. O Papa lança a questão, para dizer que, face aos apetites incontrolados dos poderosos grupos “informativos” dos nossos dias, é urgente que se defendam os mais débeis por essa regulamentação. É preciso saber o que importa comunicar para bem das pessoas e das sociedades; não o que querem sacar alguns, das pessoas e das sociedades, pelo poder que alcançaram de as entorpecer, de as manipular e escravizar.
