Os anónimos do Evangelho

Poço de Jacob – 23 Vivemos num mundo muito enganador. As pessoas querem ser lembradas, consideradas, promovidas, recordadas, mesmo depois de morrer. Temos medo de sermos colocados em segundo plano. Queremos que nos conheçam como “aquele que fez e aconteceu isto e aquilo”, para que nos admirem. Queremos assinar as nossas obras com medo de que outro as assine, pouco nos importando se elas fazem bem ou não, pouco nos importando com aquela frase de Jesus que nos adverte que se nos elogiam já recebemos a nossa recompensa.

Quando vemos a Sua vida na terra, dele só se falava mal. Era mal interpretado. E se o seguiam e elogiavam era porque Ele dava pão de graça, ou porque outros o seguiam e isso tinha seu “glamour”. Vemos os Apóstolos que discutiam quem seria o mais importante. Sabemos a resposta de Jesus. E sabemos como se comportaram na altura da Cruz. Lembramo-nos então dos anónimos da Bíblia. Como se chamava a samaritana e como foi sua vida? Onde está sepultada? Quem era o jovem rico que não quis seguir Jesus? E a hemorroísa? E a viúva de Naim e o seu filho? E a que deu esmola no templo? E a adúltera que alguns confundem com Madalena? E os publicanos que aparecem nos diálogos com Jesus, ou aquela imensa massa humana da multiplicação dos pães ou do pretório de Pilatos, ou o centurião romano que nos ensinou a rezar para recebermos a Sagrada Comu-nhão: “Não sou digno de que entres em minha casa… “ São os anónimos do Evangelho. Não os podemos condenar nem beatificar, pois nada sabemos deles, nem antes nem depois do encontro com Jesus. Supomos que se terão comportado como aqueles cujo nome e vida conhecemos na Bíblia… ou simplesmente como cada um de nós. Mas uma coisa também sabemos: Nenhum deles foi indiferente ao relato bíblico. Que a sua atitude nos ensina algo do que Deus nos quer dizer, advertir, ensinar, quer na fidelidade ao seu chamamento quer na falta de correspondência com o Senhor. Os anónimos da Bíblia são pessoas que nos falam e que marcaram a história. Podem não saber o nosso nome. Podemos não ser cano-nizados. A nossa história, linda, sem dúvida, pode desaparecer na sepultura. E podemos levar os nossos segredos e conhecimentos connosco por ninguém nos querer ouvir ou por não querermos partilhar, mas nenhuma acção humana de um baptizado é indiferente. Mesmo sozinhos, no nosso quarto, podemos ajudar ou prejudicar o projecto de Deus no mundo. O que devemos temer não é o anonimato, mas a inutilidade mística, pois se não formos fiéis – é a Bíblia que o diz – Deus dará a outro a nossa coroa. Não te esqueças da frase da Bíblia: Chamei-te pelo teu nome… Tu és meu!

P.e Víctor Espadilha