Em cima da linha As festas religiosas foram sempre as festas do povo, povo simples e humilde. Fácil foi tornarem-se populares, porque a religião era o povo crente, aqui e ali com um tipo de fé não muito esclarecida e com expressões religiosas nem sempre libertas das marcas do paganismo, mas eram momentos de encontro e de divertimento saudável, ocasiões de des-compressão das dificuldades proporcionadas pelas pesadas tarefas do dia-a-dia.
Hoje, as festas, religiosas ou não, em nome dos santos ou em nome da cultura e do convívio, tornaram-se verdadeiras exibições de afirmação, de riqueza e de vaidade: não importa saber quem faz melhor, mas quem mais gasta e mais figura faz, quem deixa os outros à distância e imprime a “pegada do dinossauro”. Assim, as nossas festas deixaram de ser religiosas, sobretudo na parte dos divertimentos, e populares, porque já não são uma realização da comunidade, mas um desfilar de verdadeiros ou falsos artistas, de grandezas sem medida, de esbanjamento inútil do dinheiro que continua a sair dos bolsos dos pobres e humildes, porque a referência religiosa se mantém. Tirem às festas o nome dos santos e vejam até onde chega o fôlego dos festeiros. Vivemos horas de dificuldades económicas, mas pouca preocupação há em investir com utilidade o dinheiro que é de todos. Dezenas e dezenas de milhares de euros são despachados com a maior das facilidades, sem qualquer respeito pela intenção de quem deu e sem qualquer sentido de sobriedade e poupança.
Os artistas invadiram as nossas festas religiosas, e nada haveria a dizer se eles fossem realmente artistas, e até há muitos que verdadeiramente o são: aqueles cuja acção depende do seu empenhamento, do seu trabalho e da sua dedicação à música, à cultura e à arte, e que nem sequer ganham na proporção do seu trabalho e do número de intervenientes.
Porém, muitíssimos dos que actuam nas festas religiosas tornaram-se “artistas” bem treinados nas “artes” sofisticadas dos malabaristas. Comecemos por um lado:
– Que interesse têm as pessoas que não ligam nada à Igreja em promover festas religiosas? Fique claro que não meto tudo no mesmo saco, mas também há por aí muito “artista”. E, daqui para a frente, a palavra artista deverá ser considerada sempre entre aspas.
Não faltam artistas nas comissões organizadoras que fazem figura apenas com o dinheiro dos outros; não faltam artistas que comem e bebem à custa das festas; não faltam artistas que “comem” de outra maneira, metendo no bolso ou na conta bancária alguns “restos” da comida que foi cozinhada por todos e dada para todos, justificando-se como uma espécie de compensação pelos trabalhos da festa que, livremente, aceitaram ou exigiram; não faltam artistas de contabilidades que até conseguem que os bares da festa dêem prejuízo; não faltam artistas que têm uma noção e uma gestão tão exactas das coisas que fazem com que as contas dêem sempre resto zero; não faltam artistas que transformam o dinheiro sagrado das promessas em dinheiro das comissões de festa. Não faltam artistas que ficam a dever dinheiro aos contratados, às próprias comissões a que pertencem, e até à Igreja …
Mas há mais e mais grave!
São os artistas pagos a preço de ouro que não correspondem minimamente ao que lhes seria exigido em qualidade e em quantidade (nem os jogadores de futebol, com tanta razão acusados, ganham tanto à hora); são os artistas do play-back e do uso das altas tecnologias; são músicos que tocam instrumentos musicais e pouca ou nenhuma música sabem (os CD’s sabem); são os artistas da baixeza e da porcaria que se troca por milhares de euros e por aplausos de um público com índices baixíssimos de educação e de vergonha, (diga-se que a educação nem sempre corresponde à dimensão da carteira ou à posição social); são os artistas que nas suas canções ou anedotas ridicularizam os valores e a religião daqueles mesmos que lhes pagam, (leia-se, por exemplo, Fernando Rocha que anda por aí, não sei a que preço), contratados de festas religiosas católicas a ridicularizar, de toda a maneira, a religião e seus seguidores. Chama-se a isto meter o ladrão dentro de nossa casa, como diziam os antigos. Se a estas situações juntarmos outra vergonhosa exigência, escrita ou falada, de pagamento em nota, sem recibo…! Eles querem assim, porque fica mais barato à Comissão. Somente isso. Não é para fugir aos impostos! Ora essa! É tudo gente séria! (Até parece!)
Isto é vergonhoso! As festas religiosas não podem contratar artistas destes. Haja quem ponha fim a isto, na Igreja e fora dela.
