Não se pode dizer que todos os que ouviram João Paulo Malta falar da autoridade paterna tenham ficado convencidos. Houve pontos de vista manifestados pelo médico lisboeta que provocaram algum desconforto, pelo menos em parte da quase centena de ouvintes que estava no Centro Universitário Fé e Cultura, na noite de 16 de Maio. Mas a linha geral da argumentação do convidado da Fundação Sal da Terra e Luz do mundo atingiu o alvo: a ausência do pai, ausência física e psicológica ou enquanto resultado da transformação do pai em apenas “o melhor amigo dos filhos”, tem consequências negativas a médio e longo prazo. João Paulo Malta apontou alguns “resultados catastróficos” dessa ausência: a taxa de toxicodependência é cinco vezes maior em jovens que cresceram com o pai ausente do lar.
Mas pode acontecer que o pai esteja em casa e não exerça a autoridade. Para o médico, o pai que aceita ser apenas “o melhor amigo dos filhos”, esquecendo a autoridade, está a pôr de lado “as chatices, as exigências e as responsabilidades”. Demite-se do seu verdadeiro papel. “É muito mais fácil. Pode correr bem durante alguns anos. Mas depois… logo se vê”, afirma. “As dependências de álcool, tabaco, ou mesmo de tv, têm a ver com a falta de autoridade em famílias que têm dificuldade em dizer «Não se faz» e ainda mais dificuldade em dizer «Não se faz, mas se tu fizeres, vais para o olho da rua». É difícil assumir um amor duro, de responsabilidade máxima”, explica João Paulo Malta, concebendo, noutro ponto da comunicação, que o pai possa dar uma bofetada ao filho ou que o professor dê um “murro na mesa”. Exercer a autoridade paterna evita que se enviem “toxicodependentes para o Centro das Taipas” e que “os jovens andem pelas lojas a comprar coisas de que não precisam”. “Poupa-se em divórcios no futuro”, acrescenta.
De onde virá, afinal, a “crise do pai”? De entre a assistência adiantaram-se algumas explicações: assiste-se a uma “infantilização geral da sociedade”; os adultos querem ser eternamente jovens; o papel da mulher mudou, tendo de ser mãe, doméstica, excelente profissional e autoridade (pai); vivemos as consequências dos “mestres da suspeita” [referência aos três pensadores Marx, Nietzsche e Freud; simplificando, o primeiro disse que a cultura depende das condições de trabalho; o segundo preconizou a “morte de Deus” para o ser humano poder ser livre; e o terceiro não concebia o crescimento humano sem a ultra-passagem de fases sexuais, consistindo uma delas na morte simbólica do pai]; o casal não sabe ser casal, não é verdadeiramente um, mantém projectos separados, não sabe crescer e ultrapassar as dificuldades que naturalmente surgem… João Paulo Malta escusou-se a dar explicações, porque falava como pai e médico e não como filósofo ou sociólogo, mas referiu mais um exemplo da “secundarização total do papel do pai”. Na nova lei do aborto, a “respon-sabilidade do pai, marido, companheiro, namorado… é completamente posta de lado. Ele não tem nada a ver com isso. «Libertem-me desse fardo». [Este modo de pensar] é aceite e incentivado por muitos homens”, disse. O mesmo se passa com a contracepção, cada vez mais dependente da mulher, quando deveria dizer respeito ao dois.
João Paulo Malta
Conhecido rosto das fileiras do “não”, a quando do referendo do aborto, João Paulo Malta é médico obstetra em Lisboa, professor na Universidade Católica e membro do Concelho da Ordem dos Médicos. Curiosamente, como relatou no Centro Universitário, a sua vocação para a medicina passou por Aveiro. Na década de 70, o seu pai, igualmente obstetra, explicava pelo país como se faziam ecografias. Após dois dias na cidade dos canais para uma dessas sessões, o filho diz ao pai: “E se eu fosse para medicina?” “Se estou aqui como médico obstetra, devo-o a Aveiro”, rematou, acrescentando “mas devo-o essencialmente ao meu pai”.
“Parteiro de Deus”
Justificando a sua profissão e introduzindo o tema da noite, João Paulo Malta resumiu um conto escrito pelo seu pai. Emocionou-se e arrancou palmas à assembleia. Segundo o conto, a S. José, muito discreto nos evangelhos, muito silencioso (não teve direito a um anjo ao vivo, como Maria, mas só em sonhos), foi-lhe dado, no entanto, o “maior privilégio que um homem pode ter”. Estando sozinho com Maria no estábulo, ajudou-a a dar à luz, “deu o nó no cordão umbilical”, “foi o primeiro a ter Cristo nos seus braços”. “Foi parteiro de Deus”.
Contradições do nosso tempo
Enquanto o aborto é liberalizado, atirando-se “filhos para o balde”, e “aumentam exponencialmente os testes de paternidade, não porque os homens fujam às despesas, mas porque “querem fugir à responsabilidade”, cresce a pressão dos amigos e familiares sobre os casais que não têm filhos: “Então, nunca mais têm bebé?” Pode tratar-se de uma violência sobre o casal, advertiu o médico, porque “muitos já andam na via-sacra das consultas de fertilidade”. Um terço dos casais tem problemas de fertilidade. É preciso ter cuidado com esse tipo de pressão.
