Os pais são sos responsáveis pela fé dos filhos

Padre Feytor Pinto no II Encontro Diocesano das Famílias No sábado e no domingo, 19 e 20 de Maio, o Seminário de Aveiro acolheu o II Encontro Diocesano das Famílias. A jornada não teve tantos participantes como se desejava e esperava, mas proporcionou reflexão útil para todas as famílias cristãs.

“Qual a diferença entre a família cristã e a não-cristã? Apenas ir à missa ao domingo? Não há relação diferente com os vizinhos? Nos transportes? Na educação dos filhos? No relacionamento com os amigos?” Partindo destas interrogações, Pe Vítor Feytor Pinto explanou com mestria e imenso prazer para os ouvintes o tema “Família e transmissão da Fé”. Pároco de Campo Grande, Lisboa, o sacerdote avivou a comunicação com exemplos da sua experiência.

Definindo pastoral como “acção organizada da Igreja, através da qual se torna presente no aqui e agora a salvação de Jesus Cristo” e observando que “a transmissão da fé na sociedade materialista, que perdeu o sentido de Deus, é mais difícil”, Pe Feytor Pinto defendeu que tal responsabilidade pertence em primeiro lugar à família. “A paróquia não é a responsável. A Igreja só complementa”, disse.

Ora, como podem os pais transmitir a fé? Fundamentalmente de três modos: pela presença, pela palavra oportuna (“não encharcar as crianças com palavras; elas desligam”, disse), pelo testemunho. Porque o testemunho é fundamental, o sacerdote notou a incoerência dos pais que levam os seus filhos à comunhão, mas não comungam, e louvou as famílias que mudam de local de férias, por exemplo, de forma a poderem participar em missas festivas.

Várias vezes o pároco de Campo Grande defendeu celebrações em que dê gosto estar, cantar, participar. Disse mesmo que, na sua paróquia, tem uma “equipa de técnicos” que trabalha com “imensa criatividade” as catequeses, celebrações e outras acções eclesiais. “E nós, padres, temos de ir atrás”, rematou.

Pe Feytor Pinto sublinhou a necessidade de os pais “completarem o que a catequese dá” e destacou que “também o pai deve rezar com as suas crianças”. Sugeriu inclusive que cada família cristã crie em sua casa a “tenda do encontro” (à semelhança de Moisés, na Bíblia, que entrava numa tenda para falar com Deus), isto é, um espaço dedicado à oração.

Os avós têm igualmente um papel insubstituível na transmissão da fé. “Tenho pena de irem para o lar, quando podiam preparar o chá ou o leite para o neto com carinho, porque a fé chega pelo coração”, disse. “Não é um problema de idade; é de sensibilidade”, acrescentou.

Sem ser possível relatar tudo o que Feytor Pinto comunicou às duas centenas de pessoas na tarde de sábado, refira-se, para terminar, a importância da celebração em família dos grandes acontecimentos, sejam de festa ou de dor, “sem ocultar às crianças a partida de uma pessoa que se ama”, e de fazer refeições em conjunto todos os dias. “Cultivar a mesa é muito importante”.

Os pais e a túnica do filho

Numa sessão destinada aos mais empenhados em serviços e movimentos de Igreja, no domingo de manhã, Pe Georgino Rocha realçou que a pastoral familiar não deve ser sectorial nem pontual (“para satisfazer certas necessidades da família”), mas antes comunitária e em todas as fases da vida. O pastoralista exemplificou, apontando o caso dos pais, por vezes afastados da Igreja, que têm um filho prestes a fazer a Comunhão: “Uma coisa é os pais participarem numa reunião por causa da túnica que o filho vai levar; outra é, a propósito da túnica, a paróquia oferecer uma sequência elaborada de reuniões, num projecto de iniciação cristã para os pais”. Claro que “é impossível fazer pastoral da família se a Igreja mais próxima da família, isto é, a paróquia, não se renovar”, referiu ao Correio do Vouga. “A renovação da paróquia é concomitante à da família”, disse.

“O mundo precisa de ouvir a vossa voz”

Na Eucaristia final, D. António Francisco notou que a família é atingida por “conceitos equívocos, vagos e confusos”, enquanto a Igreja, “clara na linguagem”, afirma que a família assenta no matrimónio indissolúvel. Sublinhou, por isso, expressões de João Paulo II, ouvidas igualmente noutros momentos do encontro: “Família, torna-te naquilo que és”; “Acredita no que és”.

Segundo o Bispo de Aveiro, a família cristã é “a primeira escola de humanização” e “agente insubstituível de evangelização” dos seus membros, das outras famílias e da sociedade. Dirigindo-se às famílias presentes, D. António afirmou: “O mundo precisa de ouvir a vossa voz e de descobrir o rosto feliz da família que sois”. E enviou-as pelos “novos caminhos” que é preciso trilhar e aos “imensos desafios” que a sociedade apresenta.

No final do encontro, o Correio do Vouga quis ouvir as impressões de duas famílias sobre o encontro. Respostas em família.

Só as vivências alegres contagiam

“O encontro deixou-nos muitos desafios. Convidou-nos a ver a família num plano menos restrito, mais abrangente. A nossa família é convidada a ir ao encontro das outras, sobretudo das mais afastadas. Por outro lado, a fé tem de ser forçosamente vida. Tem de influenciar a vida toda, do campo afectivo ao material.

Ser família cristã é viver com alegria. Só se as nossas vivências forem alegres é que contagiamos os outros. Como disse um Sr. Bispo, noutro encontro: «Famílias felizes… porquê?» Vendo a nossa felicidade, os outros hão-de interrogar-se sobre o que está na origem da nossa felicidade.”

Conceição e Duarte Matias, Glória

A Igreja tenta aproximar-se, mas…

“Foram debatidos temas actuais e muito pertinentes. Foi muito positivo o convívio. Pena não terem participado mais pessoas. É o único aspecto negativo. Havia estruturas para isso. A Igreja tenta aproximar-se, mas nem sempre as pessoas correspondem.

Realçamos o espectáculo dos grupos de Aveiro, pela transmissão da nossa cultura tradicional, e a vigília de oração no sábado à noite. Gostámos muito de duas expressões do nosso bispo: «família como santuário de amor» e «família como igreja doméstica»”.

Fernanda e Herculano Capitão,

Ana Margarida e Pedro, Esgueira

Positivo

O Secretariado Diocesano da Pastoral familiar, constituído por vários casais e liderado pelo Pe Francisco Martins, primou pela organização. O recinto do Seminário, com os seus múltiplos espaços devidamente assinalados, estava preparado para acolher talvez um milhar de pessoas. Havia actividades específicas para crianças e jovens e serviços como o de restaurante, que não tiveram tanto trabalho como seria de esperar. De qualquer forma, a mobilização de recursos revelou um Secretariado, no seu primeiro ano de actividade, capaz de grandes iniciativas. Agradecendo o empenho da equipa, no final da Eucaristia de encerramento, D. António Francisco notou com afecto que o encontro diocesano não teve a “dimensão do sonho”, mas foi um “bom começo”, um “lançar da semente”. A colheita leva o seu tempo.

Negativo

O número de participantes. Nos momentos mais concorridos terão estado três centenas de pessoas. Num ano dedicado à família, quando o encontro estava planeado desde Outubro e se previa, que ao longo do ano, se constituíssem equipas paroquiais de pastoral familiar, numa altura em que a instituição familiar é atacada de tantos lados, seria de esperar uma mobilização maior das paróquias, dos movimentos e grupos, enfim, das famílias.

J.P.F.