Memória CV – Há 32 anos José Carlos de Vasconcelos afirmou há dias que o jornalismo não é mera transmissão de comunicados. Mas há comunicados que, pelo seu relevo, devem ser transcritos na totalidade – defendeu o jornalista e advogado. E deu como exemplo o comunicado dos bispos portugueses na sequência da Revolução dos Cravos, transcrito nas páginas do Diário de Notícias. E o Correio do Vouga? Publicou esse comunicado? Procuramos nas edições após o dia 24 de Abril de 1974 e encontrámos, precisamente na edição de 10 de Maio de 1974, a nota do episcopado “Os cristãos e o Momento Político”.
Nela, a conferência episcopal afirma: “Queremos, em primeiro lugar, garantir aos cristãos que nós, bispos e padres, estamos sempre com eles, partilhando das suas esperanças e alegrias, das suas penas e apreensões, na fidelidade à nossa missão pastoral. Sentimos com todo o povo os anseios e esperanças da hora presente e com ele nos empenhamos, dento da nossa competência, na edificação de uma ordem social assente na Verdade, na Justiça, na liberdade, no Amor e na Paz”.
De seguida, os bispos reafirmam a doutrina da Igreja sobre a participação política: para a hierarquia não lhe é indiferente a forma de estruturação da vida social, mas não lhe cabe propor modelos concretos; as soluções têm de ser encontradas pelo esforço de todos os cidadãos; os leigos católicos devem participar generosamente no esforço comum; nenhum cristão ou agrupamento político pode “reivindicar de modo exclusivo, para a sua opinião, a au-toridade da Igreja”.
A terminar, formula-se “o voto ardente de que, postos de parte ódios, vinganças e lutas de classes, que só seriam prejudiciais, o povo português possa construir o seu presente e o seu futuro no progresso, na harmonia e na paz”.
Os bispos estavam com a nova ordem democrática.
