Dever de gratidão

O mês de Maio, para além da magia da Primavera que se faz sentir na sua máxima explosão, tem, entre nós, o sabor especial do mês de Maria. Multiplicam-se as expressões de reconhecimento da importância que Maria de Nazaré tem na vida de muitos cristãos e na vida das comunidades. Extravasam os sentimentos em variadas manifestações populares de carinho e devoção.

Dei comigo a pensar como é que ganha foros de “divina” uma simples jovem de um pequeno e longínquo povo. Tanto mais quanto a literatura que a divulga, nos seus inícios, é escassíssima. E, dentro desses textos, a sua atitude normal é a do silêncio: “Guardava todas estas coisas e as meditava no seu coração”.

É precisamente este silêncio que interroga. Parcas as suas palavras no diálogo com o emissário de Deus! O suficiente para expor o seu plano e se dispor a renunciar a ele: “Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”.

O espanto silencioso diante de tudo quanto se dizia e passava nos primeiros dias do nascimento do seu Filho, desde a adoração dos Pastores, até à homenagem dos Magos. Mas, sobretudo, a atenção meditativa na apresentação do Menino no Templo, em que ela é atingida duramente – “Uma espada de dor te trespassará o coração” – e a surpresa serena diante da resposta aparentemente atrevida do Adolescente, quando do reencontro do mesmo no meio dos doutores.

O silêncio é ainda a marca da sua presença na festa de Caná. Apenas uma indicação aos criados: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. O mais que provável encontro de ambos, Mãe e Filho, durante o ministério de Jesus, não resulta em diálogos narrados. Mas percebe-se a presença silenciosa da Mãe, estimulando o Filho a prosseguir a Sua missão.

É referida, sim, a presença no doloroso caminho final, nos momentos cruciais da crucifixão e morte, ainda assim em silêncio acolhedor dos factos e dos desejos manifestos do Filho, para que se encarregue agora de velar por toda a Humanidade.

Só uma realidade profunda pode conduzir toda esta serenidade e tornar fecundo e profético todo este quadro de discrição e silêncio: a compreensão progressiva do plano de Deus e a sua adesão incondicional a esse plano. Ela, de verdade, “acreditou que seria possível realizar-se nela tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor”. Por isso, no silêncio, é feliz, porque a sua própria dor redunda na garantia de felicidade para a Humanidade. Ser-lhe gratos não é mais do que fazer a nossa obrigação!