Pe. Manuel Oliveira Marques da Silva. Missionário na Roménia Pe Manuel Oliveira Marques da Silva nasceu em 1953, em Vale Maior (Albergaria-a-Velha). Com 15 anos, emigrou para o Brasil, onde viu despertar a vocação sacerdotal. Actualmente na Roménia, desenvolve um trabalho de formação de jovens e de protecção de crianças que já foi condecorado pelo Presidente da República Portuguesa. De férias na sua terra natal, o Correio do Vouga entrevistou-o sobre o seu percurso e trabalho e também sobre a Roménia, país do Leste europeu, que em 2007 poderá juntar-se à União Europeia. Por Jorge Pires Ferreira
Conte-nos um pouco da sua história. Como foi parar à Roménia?
Com 15 anos emigrei para o Brasil. Levantei vôo. Deixei a família em Vale Maior, para me livrar da tropa. Os meus pais quiseram que eu fosse para o Brasil, porque tinha lá uns tios, em Porto Alegre. Foi uma aventura. Trabalhei com os meus tios no comércio até aos 21 anos, altura em que entrei no Seminário, para a congregação dos Pobres Servos da Divina Providência.
Uma congregação que não está presente em Portugal.
Está em Angola, por exemplo. É uma congregação de tipo salesiano [dedica-se em especial à educação juvenil], mas com uma grande componente social.
Como surgiu a sua vocação?
Aos 18 anos, a minha vida deu uma grande volta. Nessa altura, questionei o significado de tudo e creio que Deus guiou a minha vida. Quando era pequeno, não me interroguei vocacionalmente, apesar do meu irmão andar no seminário. Andou até à Revolução do 25 de Abril. Fazia parte do grupo [de Aveiro] que abandonou o Seminário do Porto. No Brasil, integrado na realidade paroquial, a procura despertou. Foi importante o facto de viver numa zona de periferia, com muitos problemas: crianças de rua, abandonadas, numa zona de favela. Isso questionou-me muito. Os jovens da paróquia estavam muito empenhados. A certa altura, conheci os padres da congregação a que pertenço. Dedicam-se às crianças abandonadas, aos órfãos, a problemas sociais e familiares, drogados… Entrei para a congregação, fiz o noviciado e a teologia em Itália e fui ordenado em Vale Maior, por D. António Marcelino, em 1984.
Já não voltou para o Brasil…
Os meus superiores pediram-me para ficar em Itália, na formação. A minha actividade foi sempre de formação: seminário, orientação, trabalho com jovens. Eu sentia-me muito sensibilizado pelos problemas sociais, mas depois viram as minhas capacidades e o meu trabalho foi noutro sentido… Estive 17 anos em Itália, e tirei Licenciatura em Teologia Espiritual, em Roma. Em 1997, sentindo um pouco a veia missionária e com o desejo de voltar para o Brasil ou ir para Angola, perguntaram-me se queria ir para a Roménia, já que íamos abrir uma casa lá. Podia ir para a Rússia, porque tínhamos acabado de abrir lá uma casa, mas não me atraía tanto. Fui uma vez à Roménia, vi como era a realidade e aceitei. Eu e um italiano lançámos a congregação nesse país do Leste. Chegados, procurámos entrar na língua. É uma língua latina, mas é difícil. Mais facilmente aprendi o italiano.
A cultura romena é muito diferente da nossa?
Sim. O comunismo marcou muito a forma de ser do povo. Foram 50 anos em que o povo viveu oprimido, sem possibilidade de se exprimir. Cortaram-lhe a cabeça sem a terem cortado. Não podendo pensar, o povo mortificou-se muito. Não exprimiu o que podia exprimir. Têm muitas possibilidades, mas são muito passivos. Esperam tudo dos outros. Mesmo os jovens, só fazem se são empurrados, não porque não queiram ou sejam preguiçosos, mas porque têm medo de arriscar; não foram educados para isso. Assim, o trabalho pastoral também é muito difícil.
Mas em termos de liberdade religiosa, na Roménia não houve muitas perseguições…
Havia uma certa liberdade. Ao contrário de outros países, na Roménia as igrejas ficaram abertas. Podiam celebrar os sacramentos. Mas ficava-se muito pela dimensão litúrgica, como na Igreja Ortodoxa, que praticamente não tem outras expressões além da litúrgica. Ora, na Igreja Católica tem de haver catequese, dimensão social, evangelização… E isso não deixavam fazer. A Igreja Católica, nos poucos espaços que tinha, procurava fazer tudo. Por isso, a missa durava duas horas. Mas a dos ortodoxos durava quatro…
Nas missas, os padres procuravam dar formação ao povo. A Igreja foi o único espaço onde o povo pôde exprimir-se de modo espontâneo; e manteve-se viva, embora no sentido mais tradicional. O Concílio Vaticano II não entrou. As normas litúrgicas entraram, mas a mentalidade, a teologia e a devoção popular não evoluíram. Santo António, lá, é mais do que Jesus Cristo. Impressionou-me como os romenos têm uma devoção tão grande pelo nosso Santo António. E ainda mais os ortodoxos. É um fenómeno que mistura piedade com superstição.
Como é a relação dos Católicos com os Ortodoxos?
A realidade cristã é complexa na Roménia. Há ortodoxos e católicos, mas estes dividem-se em três grupos. Há os católicos latinos, os greco-católicos e os latino-húngaros. As diferenças teológicas são mínimas. Mas as culturais e linguísticas são grandes. A Igreja Latino-Húngara está na Transilvânia e na Moldávia. Fazem tudo em húngaro. Fiéis, padres e bispos falam húngaro. Muitos nem sabem o romeno. Estão muito ligados à Hungria. Há razões históricas para tal, porque o Império Austro-húngaro chegou até aos Cárpatos. Mesmo no meio da Roménia, em quatro ou cinco dioceses, são mais os latinos de língua húngara que os latinos de língua romena.
Os greco-católicos tiverem grandes dificuldades no tempo do comunismo. Foram perseguidos, porque são oriundos dos ortodoxos. São uma parte que regressou a Roma, os chamados Uniatas (também existem na Ucrânia). O comunismo desejou eliminar essa igreja. Os bispos foram todos presos. Foi declarada “igreja clandestina”. Quem quisesse continuar devia retornar aos ortodoxos. Os padres que não aceitavam deviam “reduzir-se ao estado laical”. Onze bispos e muitos padres foram metidos na prisão. Houve mártires. Foi a excepção à liberdade religiosa.
Os ortodoxos têm certa ligação ao poder. Custa-lhes a aceitar a separação Igreja/Estado…
No tempo do regime comunista, foram a igreja do poder; por isso sofreram menos. Mas houve padres ortodoxos que se impuseram e sofreram perseguição.
Como é a diocese em que trabalha?
A minha diocese, Iasi, no nordeste da Moldávia romena, fica a 250 Km da capital, Bucareste. Iasi e Bucareste são duas dioceses católicas latinas. A maioria dos católicos latinos romenos estão nesta zona da Moldávia. A Transilvânia está mais virada para a Hungria. Isso cria muitos problemas ao nível da conferência episcopal e da pastoral. É difícil ter um projecto pastoral comum, porque estão divididos.
Como é que os Pobres Servos da Divina Providência foram para Iasi?
Durante o tempo do comunismo, não havia vida religiosa [congregações, ordens e institutos]. Foram eliminados ou expulsos. Antes, havia franciscanos e jesuítas, que tiveram que passar à vida diocesana ou foram expulsos (os estrangeiros). As irmãs religiosas, as que não puderam fugir para o ocidente, tiveram que voltar para as suas famílias. Em 1989, quando caiu o regime, os poucos que ainda restavam reorganizaram-se. Deu-se um grande despertar vocacional. Durante o comunismo, só havia um seminário para os católicos latinos e não deixavam entrar mais do que dez jovens. Mas havia 100 ou 200 candidatos. Depois que caiu o regime, houve um grande despertar religioso. Muitos factores influenciaram, e um deles foi a pobreza. Entraram muitas congregações, nos anos 90, vindas de França e Itália. Abriram seminários diocesanos, formaram-se novas vocações. Os franciscanos tiveram preferência, por-que em séculos passados evangelizaram a região.
Há uma grande procura dos seminários depois da queda do comunismo?
É um fenómeno que nos deixa impressionados. Como é que uma comunidade tão pequena tem tanta vocação? Sente-se que o número de vocações pode cair, mas ainda há muitas. O seminário diocesano tem cerca de 200 estudantes de Teologia. A diocese tem 20 ordenações por ano. Os franciscanos conventuais, igualmente. O seminário menor tem 200 ou 300 adolescentes. São números impressionantes; porém, entende-se. É a possibilidade de fazerem qualquer coisa de válido. Vivendo nas aldeias não têm transportes, para poderem aceder a uma escola superior. O seminário é uma alternativa economicamente possível. Com pouco, pode-se estudar. Sabemos que a realidade é assim. Na Roménia, até aos quinze anos os rapazes põem o problema vocacio-nal. A passagem do ciclo para o liceu é uma altura propícia. Depois, é difícil. Aos 18 anos, só pensam em emigrar. Quem não estuda, parte.
Qual é a actividade da vossa congregação?
Como muitas outras congregações – porque havia grandes lacunas no campo social – ajudamos famílias, crianças e jovens. Estamos numa aldeia chamada Racaciun, 250 km a norte de Bucareste. Trabalhamos com famílias carenciadas, que geralmente têm muitos filhos, e damos uma atenção especial aos órfãos e à formação de jovens… Não abrimos logo uma casa para essas actividades. Primeiro, começámos por ir às famílias, dando ajudas económicas e materiais. Mais tarde, construímos uma casa para actividades de formação. E, depois, abrimos um centro de dia para crianças.
No nosso seminário menor temos 30 jovens em formação. Na Teologia, temos três na Itália e dois na Rússia.
Recebeu uma condecoração do Presidente da República português…
Foi uma coisa muito simples, eu não dava valor a isso. O embaixador português na Roménia [Sózimo da Silva], sabendo que eu era o único padre português na Roménia, quis visitar-me. Viu a casa a ser construída e as actividades com crianças. Fomos ainda visitar uma zona muito pobre. Achou a “obra magnífica” e quis promovê-la. Não é nada de especial, mas ele ficou encantado: “Vou pedir ao Sr. Presidente que premeie esta obra”. Há pessoas que fazem coisas muito maiores, mas ele entendeu propor a Jorge Sampaio que me desse uma condecoração… ordem de mérito para… já não me lembro…
Não deu grande importância…
Tenho o diploma, mas não é importante. O sr. embaixador disse-me que põem alguma dificuldade em atribuir essas coisas a padres ou obras de Igreja. É que há muita gente que faz igual ou maior… Quando inauguramos a casa, no ano passado, ele foi lá, bem como o núncio apostólico e quatro bispos – uma coisa normal.
Para o futuro, têm projectos?
Temos muitos projectos. A Roménia tem problemas sérios. Um deles é o da imigração. Muitos pais partiram para o Ocidente, Itália, França, Alemanha e também Portugal, deixando os filhos aos parentes, vizinhos, avós, quase ao abandono, sem qualquer referência. É um dos problemas. Queremos criar nas paróquias centros de dia, para que essas crianças não fiquem pela rua. Há também o problema dos pais ou mães que deixam os filhos na maternidade. Vão parar aos orfanatos do Estado. Não existe fome, mas não há muitos materiais; e há carências na educação dos filhos.
Há a ideia de algum progresso económico na Roménia, a preparar-se para aderir à União Europeia…
Mas isso é no que diz respeito a estruturas, como estradas. A UE pôs algumas condições, entre as quais que se fechem orfanatos. Há muitos, com centenas de crianças. A UE não aceita essas situações pouco educativas. Por isso, estão a fazer uma reforma com vista a criar núcleos. A nossa congregação caminha no sentido de fazer casas-família: pequenos grupos com leigos; embora seja difícil encontrar pessoas que façam família. Já estão muito ocupadas com o seu próprio lar. Mas é nesse sentido que temos de trabalhar. Há muitos órfãos porque, nas zonas rurais, os pais morrem jovens devido ao alcoolismo. É um desastre. Às vezes pai e mãe têm o problema. E, quando assim é, têm muitos filhos. Embebedam-se com vodka e aguardente feita com todo o tipo de fruta. Quase toda a gente tem um alambique artesanal em sua casa. É um problema sério, já de há muito tempo.
Como vê o futuro da Roménia?
É de esperança. Dá satisfação, quando estamos na formação dos jovens. Não me refiro à parte vocacional, falo simplesmente da parte humana; se os ajudamos, se lhes damos apoio, vemos que eles têm muita riqueza, muita criatividade, muita exuberância de vida, muitas capacidades. Ver crescer essas pessoas, amadurecer, assumir propostas de vida, dá satisfação. É uma massa boa para trabalhar. Ainda não foram invadidos pelo consumismo, embora já sejam influenciados pelos emigrantes, que voltam de Itália e trazem outra realidade. Saíram de mãos vazias e regressam de telemóvel e carro. Comparo essa realidade com a portuguesa de há 40-50 anos, quando o emigrante chegava de carro e todos o admiravam. Sofrem, vivem mal no país onde estão a trabalhar, mas o que interessa é chegar com o carro. É uma forma de dizerem: “Consegui alguma coisa”.
