Os mortos de ninguém!

Partilhando Reflecti o pensamento supra num jornal nortenho, no matutino Jornal de Notícias. E quando me dei comigo a não saber o que escrever para este espaço, (que é tanto meu, como pode ser teu, caro leitor, se quiseres!) não porque me faltasse recheio neste universo em que a cada momento soam turbilhões de acontecimentos, uns belos, outros menos e ainda outros (muitos!) péssimos, mas porque cada vez é mais difícil de escrever. É!… E as metáforas despontam como recurso para muitos jornalistas ou repórteres de hoje, dos que precisam de ganhar a vida e outros motivos, como o vincou oportunamente ontem o indiscutível repórter Carlos Fino na entrevista que deu ao Canal 2 da RTP, a propósito da apresentação do seu livro de…guerra!

Mas já me ia a perder. Que li eu então?! “São os mortos de ninguém”. E esse matutino aponta números de mortos que vão a enterrar sem nome, sem família, sem naturalidade ou residência. (ver caixa).

Por todo o País há gente que perde a vida sem direito a lágrimas, a preces ou a flores. A lei garante-lhes uma sepultura, mesmo que seja temporária, mas continuam a ser mortos de ninguém!

Ao percorrer alguns dos cemitérios da nossa cidade, da região, por obrigação e devoção, em Comunhão de Santos, constatei tantas diferenças! Tantos epítetos que transbordam sabedoria, porventura, mas, quiçá, também, ostentação. Tanto, que dá que pensar! As silenciosas, religiosas procissões de gente crente, falavam mais alto do que muitas pessoas que deambulavam por esses espaços sagrados, porque sagrados foram os corpos onde habitou uma alma. Mas os costumes, os hábitos, de algum modo, anárquicos, de certas correntes, iam transformando esses espaços numa espécie de mercado, de verborreia. Porém, o silêncio de milhares de pessoas, a sua crença, as suas preces, calavam mais fundo, iam à profundeza do mistério da Vida e da Morte! A sorte dos que tiveram quem lhes pegasse numa argola do caixão e os que nada tiveram, e passaram desta vida sem nome escrito, mas ficaram, acredito, escritos no Livro da Vida! E no meio dessas multidões de gente anónima quantos se lembraram dos sem nome, dos que não tiveram uma flor?! Discriminados na vida, esquecidos na partida, mas lembrados, amados pelo Pai de todos! É tempo de reflexão, de aquilatar o valor da Vida. E será nessa procura que desvendaremos o misterioso fenómeno da discriminação. Tantos imigrantes caídos nas bermas da estrada, das ruas sem nada, sem nome, sem direito a um sorriso, a uma flor!…

Do JN extraímos com a devida vénia: “Em menos de cinco anos, 142 cadáveres, impossíveis de identificar, foram recebidos nos institutos de Medicina Legal de Lisboa, Porto e Coimbra. A esse número juntam-se, anualmente, as centenas de corpos de homens e mulheres, geralmente sem abrigo ou imigrantes, que até são identificados, mas nunca reclamados pelos familiares…”

E a jornalista Isabel Forte adianta que “muitas famílias querem-nos para si, mas não possuem meios para os reaver. No caso dos imigrantes de Leste, por exemplo, as famílias não têm possibilidades económicas, ou então as embaixadas não os encaminham para os países de origem…”

Não se trata de idolatrar os mortos, não é isso, mas questionar situações e a tirar conclusões: também há dois pesos e duas medidas dos que têm direito a uma sepultura e outros nem a uma flor, a uma lágrima de gratidão!

Uma certeza nos pode animar é que o Criador, feito Homem, ressuscitou e está vivo para dar uma flor a todos que não a tiveram, e a dar-lhes uma Casa no Seu Reino.