Uma pedrada por semana O texto que Alice Vieira publicou há meses no Jornal de Notícias, e que só agora me chegou às mãos, é, por si, com a beleza e o realismo que são habituais à escritora, um alerta a que não se pode ficar alheio.
Conta ela que, encontrando uma velha amiga e colega de faculdade que não via há muito, entre abraços e gargalhadas. abancaram diante de uma bica, puseram a vida em dia, puxaram por fotografias dos netos e relataram as suas gracinhas infantis. Duas avós babadas, como a maioria das avós.
Foi então que a velha amiga, “com indisfarçável orgulho na voz”, diz que o seu neto de três anos “já anda no psicólogo”, a preparar-se para entrar no jardim infantil, porque “eventualmente” pode haver um problema de rejeição da escola, e é preciso prevenir tratar”. Então, e os pais? “Os pais não tinham preparação técnica” para isso…
E lá vai uma criança normal todas as semanas ao psicólogo…
É esta a sociedade evoluída que não deixa as crianças esmurrar um joelho, rasgar as calças, chorar com o nariz a correr “baba e ranho”, descobrir os amigos, zangar-se e reconciliar-se, empurrar e beijar…
Pois é. A televisão sem horas, a playstation a todas as horas, sossegam mais os pais “sem preparação técnica” que querem as crianças entretidas, sem barulhar nem incomodar…
Será por isso que o Estado, que acordou também com vocação de educador, quer cada vez menos a família a educar os próprios filhos? Será por isso que algumas meninas, educadoras e técnicas sociais recém formadas, ou outras já chegadas a chefes que sabem tudo e ninguém lhes ensina nada, gozam com o modo como educam as pessoas que fazem do amor às crianças e do que a vida lhes ensina todos os dias, o seu código profissional?
Ai, “senhor feliz”, ai povo adormecido, para onde vai este país!…
