Reflexão pascal “Eis o Homem” – exclama Pilatos, ao apresentar Jesus à multidão sublevada. Seria uma exclamação demasiado caricata, se não fosse séria; demasiado burlesca, se não fosse trágica; demasiado irónica, se não fosse verdadeira e profética. Talvez Pilatos nem sequer medisse o alcance do que dizia. Mas a comunidade cristã nascente viu nessa afirmação um sentido profundo, e continua a proclamá-la como mensagem positiva para todos os tempos.
A situação de Jesus é contrastante. A consideração, que justamente foi merecendo da parte do povo, atingia o grau mais baixo. A fama e honra, de que gozava pela sabedoria dos seus ensinamentos, raiavam o ridículo. O nível social e religioso a que ascendeu pelo seu amor à verdade, degradava-se de forma clara e contundente. Os judeus iam observando rigorosamente o ritual da sociedade em que a cultura privilegia a relação “honra-vergonha”. Destituído aos olhos da multidão daquilo que mais o identificava, que lhe restaria, senão a condenação ao suplício supremo, à infâmia da morte?!
No entanto, a paixão pela verdade leva Jesus a comportar-se de modo interpelante. Para falar, alia o silêncio à palavra. Para testemunhar, concilia a serenidade e a firmeza. Para defender a dignidade, deixa-se aprisionar, permanecendo interiormente livre. Para abrir horizontes à compreensão humana, assume corajosamente a cruz e leva-a até ao fim. Para completar o ciclo da vida, perdoa aos algozes, confia em Deus Pai, apesar do tormento por que passa, e irrompe vitorioso do túmulo na manhã de Páscoa. Ressuscita, anunciando a outra face da vida. Surge triunfante, testemunhando que Deus aprovara tudo o que havia feito anteriormente. A verdade está do seu lado. Comporta uma dimensão objectiva e expressa-se em atitudes coerentes.
“Eis o Homem” – continua a proclamar a Igreja, propondo um modelo que se oferece a todos, sem discriminação nem reservas. É sua missão permanente fazer esta proposta em diálogo com as culturas, sobretudo em momentos de crise de valores e de afirmação clara do abandono de todas as referências éticas objectivas. Propor Jesus Cristo como modelo é revelar à pessoa humana a sua verdadeira dimensão, o caminho da sua realização feliz, a verdade que conduz à vida autêntica; o espírito de serviço que faz crescer em humanidade, dando e recebendo ajuda solidária.
Propor, com ousadia confiante, é a atitude fundamental da Igreja numa sociedade secularizada. Sem propostas, acessíveis e atraentes, como se pode escolher?! E sem opções, como se exercita a liberdade?! E sem liberdade, como se cresce em humanidade?! E sem humanidade, a que se reduz a dignidade da pessoa, a que se condena a sociedade, a que se sujeita a comunidade política, a que futuro se entrega a esperança das jovens gerações?!
A paixão pela verdade tem a sua fonte inesgotável em Deus, que quer ser conhecido como companheiro da pessoa humana no seu peregrinar sobre a terra. A paixão pela verdade brilha no exemplo de Jesus, em tudo quanto disse e fez, sobretudo nas fases cruciais da sua vida. A paixão pela verdade é alimentada pelo Espírito Santo, que não cessa de nos fazer recordar, nas mais diversas circunstâncias, a memória viva de Cristo.
A verdade fragmenta-se em valores que dão sentido à vida, origem e configuração às culturas, humanidade às civilizações. São estes valores que, à maneira de caminhos, podem convergir entre si e conduzir ao Evangelho de Jesus Cristo, recebendo um precioso reforço. São estes valores que, integrados num todo harmonioso, manifestam a humanidade da convivência social e fazem brilhar o rosto feliz de Deus-Pai na fidelidade incondicional à verdade e nas atitudes dignas de todos os cidadãos.
