Revisitando o Vaticano II Voltamos ao Concílio Vaticano II, para redescobrir o avanço que ele significou na devolução da Bíblia ao povo cristão, como alimento habitual. O anúncio do Concílio apareceu aos exegetas conservadores como a oportunidade de dar o golpe de misericórdia nos novos caminhos da exegese, na hermenêutica seguida pelo Instituto Bíblico. Para além de conseguirem remover das suas cátedras os grandes mestres St. Lyonnet e M. Zerwick, no curso de 1961-62, distribuíram mesmo aos Padres conciliares, no início do Concílio, um folheto integrista muito crítico para com a nova exegese.
Valerá a pena recordar, telegraficamente, os sobressaltos desta relação Bíblia e Povo de Deus. Durante vários séculos, o receio da hierarquia acerca das interpretações livres e pessoais da Bíblia privou o povo do contacto com a Escritura. A Vulgata, versão latina dos Textos Sagrados, surgiu para que todo o povo, que entendia o latim, pudesse ter acesso à leitura da Palavra, quando o grego se tornou a língua culta.
Na Idade Média, o povo deixou de perceber o latim; surgiram, então, as traduções em línguas vernáculas. Porém, várias vezes foram decretadas proibições da leitura da Bíblia aos católicos, com o medo de aproximações aos hereges ou protestantes, apesar de o século entre 1560 e 1660 ser chamado século de ouro da expansão da Bíblia entre os católicos. A polémica, entretanto, não abrandou. Às críticas protestantes e de alguns exegetas racionalistas, a Igreja reagiu negativamente, abrindo caminho à posição conservadora, que acabou por colocar o conhecimento bíblico ao serviço de uma dogmática fundamentalista. E o resultado foi que, até 1880, se viveu um clima de verdadeira penúria escriturística, dando a sensação de que a Bíblia era um livro protestante. Ainda nos princípios do século XX se sentia uma atitude defensiva por parte do Magistério.
A encíclica Providentissimus Deus, de Leão XIII (1893), dá início a uma moderada renovação da exegese católica, cujo impulso é sensível, na sequência da criação da Escola Bíblica de Jerusalém pelo dominicano M. J. Lagrange, em 1890. Apesar da polémica antimodernista, do abandono provisório forçado por parte de Lagrange da Escola que fundara (1910 a 1913), da criação do Instituto Pontifício Bíblico por S. Pio X em 1909, o movimento bíblico iniciado por Lagrange produziu abundantes frutos entre 1910 e 1940.
Mas foi a encíclica Divino Afflante Spiritu de Pio XII, em 1943, que abriu as portas ao caminho para a constituição conciliar Dei Verbum. Um dos resultados imediatos da encíclica – dizia P. Grelot – foi a alteração de certas decisões disciplinares tomadas em tempo de crise aguda. O texto de Pio XII abriu novos horizontes: nova maneira de focar os problemas exegéticos, afinação de métodos para os resolver, aprofundamento do estudo da inspiração e suas consequências.
Não foi pacífica a rota a traçar para e reflexão conciliar sobre a Bíblia. Vê-lo-emos no próximo número. Como descobriremos que, mais uma vez, Deus escreve direito por linhas tortas. E abordaremos também as suas características fundamentais.
Querubim Silva
