A lógica do perdão

À Luz da Palavra – XXIV Domingo do Tempo Comum – A A liturgia deste domingo fala-nos da exigência de perdoar, como condição de salvação. Afirma-nos que Deus ama sem cômputos e sem balizas, e interpela-nos, decididamente, a assumir uma atitude semelhante para com os irmãos e irmãs que fazem caminho connosco.

No evangelho, Jesus, motivado pela pergunta de Pedro sobre a contabilidade do perdão, conta-nos uma parábola sobre o modo de Deus proceder face aos nossos comportamentos. Trata-se de um rei que perdoou ao seu servo uma dívida de dez mil talentos, depois deste lhe implorar, humildemente, um lapso de tempo para que lhe pudesse pagar a dívida. Diante desta atitude, o Senhor encheu-se de misericórdia e perdoou-lhe tudo, enviando-o em liberdade. À saída, este servo encontrou um companheiro que lhe devia apenas cem denários. Esquecido do perdão que recebera, atira-se ao pescoço do seu devedor e exige-lhe o pagamento imediato da sua dívida. O companheiro, de joelhos, também lhe implora um prazo para saldar a dívida. Porém, este mandou-o prender e não lhe perdoou os cem denários, quando afinal já tinha sido beneficiado com dez mil talentos. Jesus conclui, dizendo que o rei, ao saber deste facto, ficou indignado pelo servo não ter aprendido a lição do seu senhor, e entregou-o aos carrascos até que lhe pagasse toda a dívida. E conclui: “Assim procederá convosco o Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração”. No tempo de Jesus, como hoje, vivemos numa sociedade altamente marcada pela violência, pela vingança, pelo mal querer e mal dizer, pelas divisões e rixas. E tudo isto, porque não somos tolerantes, não temos grandeza de coração e misericórdia para perdoar as ofensas dos outros. Enfatizamos o mal que nos fazem e retribuímos com dupla ou tripla maldade.

Na primeira leitura, o autor considera que o rancor e a ira são sentimentos detestáveis, que não se ajustam à felicidade e à realização do ser humano. Mostra como é ilógico esperar o perdão de Deus e recusar-se a perdoar ao irmão e irmã, e avisa-nos que a nossa vida nesta terra não pode ser estragada com sentimentos, que só geram infelicidade e sofrimento. Quem se vinga do seu próximo, não poderá obter o perdão de Deus, mesmo que lho peça insistentemente. Estamos condicionados no perdão, como nos ensina Jesus no Pai-nosso.

Na segunda leitura, Paulo sugere aos cristãos de Roma que a comunidade cristã tem de ser o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, do perdão. Ninguém deve desprezar, julgar ou condenar os irmãos e irmãs, que têm perspectivas diferentes. Os seguidores de Jesus hão-de ter presente que há algo de fundamental que os une a todos: Jesus Cristo, o Senhor.

A Palavra é muito incisiva na questão do perdão das ofensas ao próximo. Perdoar é condição para que também sejamos perdoados pelo Senhor. É urgente educar o coração para uma cultura de amor e de perdão, a começar na mais tenra idade. Infelizmente, na maioria dos modelos familiares e sociais, predominam os sentimentos detestáveis do rancor, da ira e da vingança. “Perdoa a ofensa do teu próximo e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas”.

Leituras do XXIV Domingo

Sir 27,33-28,9; Sl 103 (102); Rm 14,7-9; Mt 18,21-35

Deolinda Serralheiro