Por que é que os padres portugueses não andam vestidos de padre?

O Leitor pergunta Para responder a esta questão colocada por um leitor de Fátima (ver CV de 29 de Junho, na secção da Colaboração dos Leitores), que lembrava que, no Santuário, muitos padres estrangeiros andam vestidos de padre, enquanto alguns portugueses não, fomos ver o que diz o Código de Direito Canónico (a colecção das leis da Igreja) e perguntamos a opinião a alguns padres.

O Cânone 284 do CDC diz: “Os clérigos usem traje eclesiástico conveniente, segundo as normas estabelecidas pela Conferência episcopal, e segundo os legítimos costumes dos lugares”.

O CDC parece reconhecer claramente que a forma de vestir depende muito do lugar em que se habita. Mesmo para os padres. Por isso, deixa a questão para as conferências episcopais. Estar a decretar uma forma de vestir universal, para tão diferentes geografias, climas e tradições, seria claramente abusador.

Em 1985, sobre esta questão, os bispos portugueses, em conformidade com o cânone, determinaram:

“1. Usem os sacerdotes um traje digno e simples de acordo com a sua missão.

2. Esse traje deve identificá-los sempre como sacerdotes, permanentemente disponíveis para o serviço do povo de Deus.

3. Esta identificação far-se-á, normalmente, pelo uso: a) da batina; b) ou do fato preto ou de cor discreta com cabeção.”

Parece claro, no cânone e na adenda dos bispos, que a forma de vestir deve estar em função da missão. Sendo socialmente identificados como padres, podem desenvolver melhor a sua missão. No entanto, também é claro que o uso da batina, hoje, exceptuando contextos muito específicos (como pode ser o de Fátima), dá azo a todos os estereótipos e preconceitos. Basta reparar nos “sketches” humorísticos da TV. O padre, quase sempre ridicularizado, aparece de batina.

E o que pensam os padres? Duas opiniões. Para o Pe. Francisco Melo, que aos domingos costuma vestir o traje eclesiástico (fato e cabeção, que alguns designam por “clergyman”), a questão da identificação não se põe: “Não tem nada a ver com o ser padre” – diz o pároco de Vale Maior e Ribeira de Fráguas, no concelho de Albergaria-a-Velha. Tento marcar o domingo. Uso-o mais para mim do que para os outros”. E acrescenta que, nas suas paróquias, toda a gente sabe que é padre.

O Pe Alexandre Cruz, do Centro Universitário Fé e Cultura (Aveiro), por seu turno, acha que o traje eclesiástico, mais do que aproximar as pessoas, pode afastá-las. O responsável pela pastoral do ensino superior na diocese de Aveiro considera que, no contexto português, “ainda marcado por anticlericalismo, o hábito pode criar um certo choque que só prejudica o serviço que o padre e a Igreja pretendem prestar à sociedade”.

A generalidade dos padres, pelo menos na diocese de Aveiro, considera que a descrição e simplicidade devem presidir ao vestir. Alguns usam, como sinal de identificação, uma discreta cruz ao peito.

J.P.F.