À Luz da Palavra – XV Tempo Comum – Ano A A importância da Palavra de Deus e a centralidade que ela deve assumir na nossa vida de crentes, é o tema fundamental da liturgia deste domingo.
A primeira leitura diz-nos que a Palavra de Deus é verdadeiramente fecunda e criadora de vida. Ela indica-nos os caminhos que devemos percorrer, dá-nos esperança e ânimo para intervirmos no mundo. É sempre eficaz e resulta, embora nem sempre actue de acordo com os nossos interesses e critérios. O nosso tempo é marcado pela tendência para a eficiência rápida e sem grande esforço. É o tempo da Internet a alta velocidade. Clica-se e já está. Por isso, achamos que Deus deve também ser mais rápido. Queremos que Ele aja imediatamente, que resolva logo os nossos proble-mas. A primeira leitura afirma-nos que a Palavra de Deus é sempre eficaz e não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a vontade de Deus, sem ter realizado a sua missão. E convida-nos a acertar o nosso ritmo com o de Deus, pela fé, paciência e perseverança, pois a «hora» de Deus nem sempre coincide com a «hora» dos nossos relógios. O seu ritmo não é o ritmo acelerado da pós-modernidade.
O evangelho conduz-nos à reflexão sobre o modo como acolhemos a Palavra de Deus, quando a escutamos na assembleia dominical ou nas nossas casas, pois ela é importante e reveste-se de todo o significado para as nossas vidas. Segundo Jesus, há diversos tipos de terreno onde a Palavra cai como semente: os distraídos, os superficiais e inconstantes, os cheios de si, os materialistas e comodistas e os concentrados, sensíveis e bons. Neste texto, Mateus exorta-nos a ser uma «boa terra», disponível para escutar as propostas de Jesus, para as acolher e para deixar que elas dêem abundantes frutos no dia-a-dia das nossas vidas. A «boa terra» significa aqueles homens e mulheres que encontram na proposta de Jesus um caminho de libertação e de plenitude e que, como Jesus, aceitam fazer da sua vida uma entrega a Deus e um dom aos irmãos e irmãs. Este é o modelo do verdadeiro discípulo e discípula. Este é o convite que Jesus me faz, hoje. O evangelho assegura-nos, também, que o «Reino» proposto por Jesus é uma realidade já em curso a qual, uma vez iniciada, não mais pára de crescer. Nesta realidade, a vida de Deus vai-se manifestando, progressivamente, até atingir todo o seu esplendor e fecundidade no fim dos tempos. Não desanimemos, pois, diante do aparente fracasso a que estamos sujeitos neste mundo, porque o «Reino» já está implantado neste mundo. A nossa tarefa cristã é a de o fazer crescer.
Na segunda leitura, Paulo exorta os crentes a decidirem-se por uma vida «segundo o Espírito». Esta opção tem uma dimensão cósmica e afecta a relação dos seres humanos entre si e destes com toda a criação, porque há uma solidariedade intrínseca entre o ser humano e o resto da criação. Uma vida conduzida à margem da Palavra de Deus gera escravidão, morte, sofrimento, que se reflectem na vida de todos os outros seres criados, e cria desequilíbrios que desfiguram este mundo que Deus quis «bom» … Pelo contrário, uma vida conduzida de acordo com os critérios da Palavra de Deus, gera amor, solidariedade, que se reflectem na vida dos outros seres criados, e criam harmonia, equilíbrio, bem-estar, felicidade.
Hoje, somos convidados a olhar para o futuro do mundo e da humanidade com um olhar de esperança e a caminhar decididamente para o «novo céu e a nova terra», que já estão a construir-se na terra, na nossa história, sempre que os discípulos e discípulas de Jesus aceitam o seu convite e se dispõem a viver «segundo o Espírito», guiados pelo Palavra de Deus.
Leituras do XV Domingo: Is 55, 10-11; Sl 65 (64); Rm 8,18-23; Mt 13,1-23
Deolinda Serralheiro
