A igreja no mundo contemporâneo (II)

Revisitando o Vaticano II O Mundo, cenário em que se desenrola a história da Humanidade, é também o espaço da vida da Igreja, pelo que a Comunidade dos discípulos de cristo se não pode alhear do que são as realidades do mesmo Mundo. Por isso, “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os aflitos, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo, e nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração.” – GS 1.

Fora de questão, portanto, qualquer fuga das realidades em que vivemos, ainda que, porventura, a nossa vida seja numa comunidade de clausura. Mesmo aí, o pulsar da vida cristã passa por erguer a nossa prece no altar do Mundo, por fazer a nossa oferta com as dores e alegrias do Mundo, por devolver ao Mundo – todo ele gemendo como que em dores de parto, à espera da libertação final – a recriação operada pelo Sacrifício redentor de Jesus Cristo. Aliás, o mesmo Senhor Jesus, na Sua oração ao Pai suplica: “Não Te peço que os retires do Mundo, mas que os livres do Maligno.” – Jo.17,15.

Portanto, não pode a Igreja eximir-se de fomentar a fraternidade, num tempo de excepcionais condições de aproximação e globalidade, um tempo de imensa riqueza, mas também de condições de miséria e de fome para multidões incontáveis. Em tempos de consciência universal adquirida do valor da liberdade, nunca foi tão grande e diversificada a situação de escravatura – e a Igreja não pode permanecer alheia a um compromisso claro nas formas de solidariedade que invertam o caminho do egoísmo e da desagregação dos povos.

As rápidas, vertiginosas mudanças, que envolvem também os conceitos e estruturas sociais básicas tradicionais, põem em causa os valores habitualmente acolhidos. Isto reclama da Igreja uma projecção da luz do Evangelho sobre a realidade do Homem, sobre o seu mistério, para que ele encontre solução para os problemas actuais, redescobrindo a sua dignidade e a sua condição de ser em relação, para concertar os interesses e direitos fundamentais próprios com o bem de todos, o respeito e o acolhimento de cada um.

(cont. no próximo número)

Querubim Silva