Bento XVI vai à cidade italiana que viu nascer São Francisco para se encontrar com líderes religiosos e ateus, assinalando o 25.º aniversário do Dia Mundial de Oração convocado por João Paulo II
Bento XVI promove no dia 27 de Outubro um novo encontro mundial de líderes religiosos “pela justiça e a paz”, na cidade italiana de Assis, à imagem do que fez João Paulo II no dia 27 de Outubro de 1986.
Na apresentação do programa desta jornada de “reflexão, diálogo e oração”, o Vaticano anunciou a presença de 17 delegações das Igrejas cristãs do Oriente – incluindo o Patriarca Bartolomeu I de Constantinopla (Igreja Ortodoxa) -, 13 Igrejas ocidentais – com a presença do primaz anglicano, arcebispo Rowan Willams -, uma representação do Grão Rabinato de Israel (judaísmo) e outros 176 representantes de diversas tradições religiosas.
Do Médio Oriente e dos países árabes vão chegar 48 muçulmanos à cidade que viu nascer São Francisco de Assis, na qual se reuniram líderes religiosos em encontros similares convocados por João Paulo II, em 1986 e 2002.
A Santa Sé destaca ainda a presença de um sobrinho de Mahatma Gandhi, na representação hindu, para além de quatro professores “que se professam como não crentes” (ver texto ao lado).
Bento XVI vai passar o dia inteiro em Assis, após uma viagem em comboio, estando prevista uma celebração especial, no dia 26, em vez da audiência pública semanal na Praça de São Pedro. «Peregrinos da verdade, peregrinos da paz» é o tema escolhido para o encontro inter-religioso anunciado logo no primeiro dia de 2011 pelo actual Papa, lembrando o “25.º aniversário do Dia Mundial de Oração pela Paz”.
“Irei como peregrino à cidade de são Francisco, convidando os irmãos cristãos das diferentes confissões, os representantes das tradições religiosas do mundo e todos os homens de boa vontade a unirem-se neste caminho com o objetivo de recordar aquele gesto histórico desejado pelo meu predecessor”, disse então Bento XVI.
Na conferência de imprensa, no dia 18 de Outubro, o cardeal Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, destacou a importância de “colaboração entre as religiões”, perante desafios como a “crise económica e financeira” ou a “crise das instituições democráticas e sociais”. Para este responsável, o encontro de Assis serve para dizer “não” a “qualquer instrumentalização da religião”, em particular como justificação para a violência, e para “superar o laicismo que quer marginalizar da família humana aquele que é o princípio e o fim [Deus]”.
Programa em Assis
O programa do próximo dia 27 inicia-se pelas 08h00 italianas (menos uma em Lisboa), com a partida em comboio, desde o Vaticano, de Bento XVI e das delegações de outras Igrejas e confissões religiosas, rumo a Assis, onde devem chegar pelas 09h45.
Na cidade italiana, os participantes no encontro reúnem-se na basílica de Santa Maria dos Anjos, para ouvir o Papa e recordar as iniciativas realizadas anteriormente. Após o almoço, todos os presentes vão dirigir-se em silêncio para a basílica de São Francisco, que acolhe o momento de renovação do “compromisso comum pela paz”.
Os países representados em Assis vão ser mais de 50, entre os quais Egipto, Paquistão, Jordânia, Irão, Arábia Saudita e outros que, segundo o Vaticano, “são talvez dos que mais sofrem neste momento histórico por causa dos problemas da liberdade religiosa”.
J.P.F. / Ecclesia
Quatro ateus no encontro
Cabe ao filósofo mexicano Guillermo Hurtado fazer a intervenção representativa dos ateus. Será a última da tarde, depois de os outros líderes religiosos falarem e antes da conclusão do Papa Bento XVI. Além do filósofo mexicano, vão estar presentes Julia Kristeva, filósofa e escritora francesa (nascida na Bulgária), que anteriormente participou na sessão parisiense do “Átrio dos Gentios”, em 24 e 25 de Março de 2011, Remo Bodei, professor de História da Filosofia na Universidade de Pisa e na Universidade da Califórnia, e Walter Baier, economista austríaco, coordenador da rede “Transfom!” (grupo de pesquisa de esquerda) e membro do Partido Comunista Austríaco.
Gesto criticado mas rico de significados
Após a convocação do terceiro encontro de Assis (o primeiro foi em 1986; o segundo em 2002, na sequência dos atentados de 11 de Setembro, para afastar a justificação teológica da violência e afirmar as religiões como factor de paz), por Bento XVI , no Angelus de 1 de Janeiro de 2011, apareceram nos jornais italianos diversas opiniões e abaixo-assinados para que o Papa repensasse a decisão. Assinavam os pedidos jornalistas e intelectuais de sensibilidade mais tradicional, alguns tidos como “ratzingerianos”, por vezes lembrando que o próprio cardeal Joseph Ratzinger fora crítico do encontro inter-religioso de 1986, tido como ambíguo porque, supostamente, pôs todas as religiões no mesmo nível, abrindo caminho ao relativismo e indiferentismo. No jornal “Il Foglio”, Filippo Di Giacomo escreveu: “Para que servem esse encontros? O que deixam? Além do risco de que haja quem, até na Igreja, pense que Deus seja alguém que tem um nome que muda de acordo com a religião que o professa (…).”
Sinal de que a convocação de Assis III gerou algum incómodo, mesmo no Vaticano, foi a sequência de artigos que o “L’Osservatore Romano” publicou, como que a justificar a iniciativa papal. Num deles, Giovanni Maria Vian escreve: “A decisão de ir a Assis é uma consequência lógica da linha que o Papa sempre teve nas relações com as outras religiões desde a eleição: confronto amigável e, ao mesmo tempo, insistência sobre a necessidade de que seja garantida a todos a possibilidade de ser o que são, enfim, a «liberdade religiosa»”.
Mas o que pensará Bento XVI? Embora sem figurar na lista dos participantes do encontro de 2002 até à véspera, como notou a revista “30 Giorni”, Joseph Ratzinger esteve no encontro e interveio a pedido de João Paulo II. Para esta revista, o cardeal Ratzinger escreveu depois uma meditação sobre a experiência vivida, usando precisamente as duas palavras que figuram no lema de Assis III: “Não se tratou de uma auto-representação de religiões que seriam intercambiáveis entre si. Não se tratou de afirmar uma igualdade das religiões, que não existe. Assis foi, antes, a expressão de um caminho, de uma busca, da peregrinação pela paz que assim o é e só se unidade à justiça”. E ainda: “Com o seu testemunho pela paz, como o seu compromisso com a paz na justiça, os representantes das religiões empreenderam, no limite das suas possibilidades, um caminho que deve ser para todos um caminho de purificação”.
Outas explicações têm sido dadas para o novo encontro de Assis. Dizem que é mais um acontecimento para o “magistério dos gestos”, a par do magistério dos documentos. Que Bento XVI reafirma o diálogo inter-religioso saído do Vaticano II (deixando um sinal claro aos lefebvrianos, que não aceitam nem o diálogo inter-religioso nem o ecumenismo). Que mais do que diálogo entre as religiões, o Papa propõe um diálogo entra as culturas resultantes dessas religiões (diz Jean-Marie Guénois). Que Bento XVI tem em vista as dificuldades dos cristãos no seio de outras maiorias religiosas, principalmente no mundo islâmico. Que Bento XVI torna assim visível a “força do pontificado romano como instituição ao serviço da Igreja e do mundo contemporâneo” enquanto “intérprete (…) de um sentimento dos fiéis e de um mundo inteiro” (diz Massimo Faggioli). Curiosamente, não se diz que Bento XVI assume a intuição do padre e teólogo crítico Hans Kung (que até criou uma fundação para promover o diálogo inter-religioso), segundo a qual não haverá paz no mundo se não houver um consenso ético comum a todas as religiões.
Um gesto como este terá sempre muitos significados. Os mais elementares e importantes estão aos olhos de todos. O Papa volta a Assis para reafirmar a paz, o diálogo, a justiça. Que o mudo o siga.
J.P.F.
