Para o Advento uma melodia maior

Entramos na quarta semana de advento e com ela propomos música aos jovens da diocese. A música torna-se manifesto daquilo em que acredita e as atitudes com que vai semeando a vida transformam-se em ilustrações pragmáticas do que poeticamente vai expressando.

Fazer da nossa vida e das nossas opções espaço, oportunidade, contexto próprio para expressar o Deus em que acreditamos e que nos impele para uma acção de acordo com as nossas convicções de fé é o grande desafio para cada cristão. Numa expressão – trata-se de baptizar a nossa vida, baptizar a espontaneidade da nossa forma de viver, ver a realidade, reagir a ela. A personalidade que propomos para esta semana pode ser um bom exemplo deste esforço que se treina, todos o conhecem por Bono e é vocalista do grupo irlandês U2.

Se é conhecido por liderar um grupo Rock, a verdade é que Bono tem-se destacado como filantropo, aderindo e usando a sua imagem, popularidade e esforço, em favor de causas humanitárias. Está ligado à campanha de perdão da dívida externa dos países africanos, nomeadamente através da colaboração directa no programa DATA (Debt, AIDS and Trade in Africa – Dívida, Sida e Comércio em África), tendo já colaborado anteriormente no Programa Jubileu 2000 e ainda nas causas defendidas pela Netaid e pela Warchild (para a qual foram os lucros do single Miss Sarajevo). Devido a esta intensa actividade, foi laureado com o prémio MTV Free Mind em 1999 e, individualmente ou com a banda, tem recebido condecorações de várias entidades públicas, entre as quais se conta a Presidência da República Portuguesa.

Qual a razão desta forma de entender a vida? A verdade é que Bono pensa a vida e a sua própria existência elevando os olhos para Deus. Testemunha que é crente, diz que tem dificuldade em dizer que é cristão por sentir o peso que esse título tem. Não foge, no entanto, às suas responsabilidades como homem e como homem de fé. Todos os dias tenta tirar um tempo para rezar e reflectir e confidencia que se sente em casa numa Igreja Católica, não deixando de afirmar que acreditar em Deus é o que o faz levantar todos os dias. Acreditar num Deus que vai para além do olho por olho, dente por dente e que, pela graça, perdoa todos os erros e acolhe sempre de braços abertos. Não deixa de partilhar que tem dificuldade em encarar a Igreja como instituição, quando nota que esta, por vezes, se demite da vida concreta dos homens e mulheres do seu tempo; talvez por isso simpatize com as igrejas protestantes de raiz afro-americana. Nelas vê a alegria, a música e, sobretudo, a vontade de acompanhar e ajudar os fiéis. No entanto, recorda o dia em que estando em família a participar numa Eucaristia de Páscoa, em França, sentiu que de joelhos estava na presença de Deus, esse Pai sempre presente. Mesmo na música que desenvolve no seio do grupo, uma vez que é o autor de grande parte das letras, se nota esta relação permanente com Deus: “Iahweh”, “Still haven’t found what I´m looking for” ou mesmo “In the name of love” ou “You can´t make it on your own” são disso testemunho. Bono confidencia mesmo que as melhores letras têm, certamente, Deus como autor! Este testemunho de vida e de fé não nos pode deixar indiferentes!

Mais do que convencer as pes-soas de alguma coisa, sem complexos testemunha o seu caminho e respeita muito os que não acreditam; porém não pode deixar de testemunhar essa grande descoberta que dá sentido à sua vida: Deus Todo-poderoso escolheu uma Criança para mostrar poder tão profundo. É também a descoberta que cada Advento nos desafia a fazer… Deus fez-se próximo, atento, escuta a nossa vida, acolhe a nossa oração, compreende-nos, ainda que nem sempre O compreendamos!