Paróquia, comunidade do perdão

O perdão é um dos frutos pascais mais saborosos, a par de tantos outros, que visam anunciar a nova criação. Surge ligado à paz, ao Espírito Santo, à missão, à cura, à transmissão da fé, à celebração do sacramento. Dado e recebido pessoalmente, tem sempre uma dimensão englobante de toda a realidade humana: a terra que espera a libertação do sangue das vítimas inocentes, a humanidade que anseia por se ver refeita de divisões e contendas, a comunidade cristã que sente o défice ou a fractura que o pecado provoca e acentua, a Igreja no seu conjunto que comporta, a par da santidade de que está revestida, a limitação e o falhanço dos seus membros e, por consequência, dos seus grupos e movimentos.

O centro da vida cristã é a graça, enquanto relação integral com todas estas realidades, que mantêm e potenciam uma profunda harmonia e coesão entre si. Acentuar o pecado – como em tempos passados – é desfocar a beleza e a grandiosidade dos horizontes a que estamos chamados. É certo que a “nossa porta” está aberta a essa hipótese e vibra facilmente com a tentação inesperada e surpreendente. É certo que o “nosso ser” traz consigo uma propensão conatural para a sedução e o encanto vistosamente apresentados no mito de Eva e Adão. É certo que o ambiente social que predominantemente se respira no Ocidente está, hoje, repassado de provocações e insinuações, de incentivos e solicitações. Apesar de tudo isto, o ser humano nasce para a harmonia, vive a construir o equilíbrio interior e social, amadurece a cultivar relações de convivência integradora e tolerante, atinge a maturidade sempre que sabe promover a reconciliação, aceitar e dar o perdão.

No seio materno, inicia-se o processo da criação em que os ritmos se contrastam, alternam e tendem a articular: a distensão e o sossego com a tensão e o conflito, a autonomia e a afirmação pessoais com a aceitação das regras comuns e a inserção social, a convergência com a sua contrária divergente, a evolução progressiva com a estagnação prolongada ou definitiva. Este processo vai-se desenvolvendo e condiciona a identidade pessoal e a integração grupal, alicerces de uma realização feliz.

O perdão surge nesta dinâmica, ora suavizando a força dos pólos em oposição, ora curando as feridas provocadas pelo choque e recriando uma situação de nova harmonia. A nova criação começa a despontar, qual primavera de um tempo que avança para a sua plenitude. A humanidade desfruta, por antecipação, da realidade futura de total reconciliação. As vítimas, de qualquer espécie, sentem acalentado o sonho de lhes ver restituída a razão que fora destroçada pelos seus algozes. Os bens, marcados pelo dinamismo do Espírito, reassumem a sua função de serviço ao dispor de todos os humanos. A harmonia universal, que se vai prefigurando com estes passos germinais, não visa restaurar a situação antiga, mas desvendar o horizonte novo definitivo, procurando que tudo seja instaurado em Cristo Jesus.

A paróquia é, por excelência, a comunidade do perdão no meio da sociedade. Tudo nela e por ela pretende ser dom de Deus que se faz doação nas atitudes e gestos das pessoas e suas organizações. Se esta doação é recusada ou desvirtuada surge o pecado multicolor. Nesta circunstância, o dom não se esgota, mas como que reforça e assume a intensidade do perdão, da “perdoação” em excesso para o que era devido, do amor gratuito e exuberante que se pretendeu negar ou adulterar. A oferta renovada supera em muito a situação alterada e convida à alegria, ao encontro, à festa, como se espelha tão bem na narração de Lucas sobre as parábolas da misericórdia.

Os cristãos, conscientes deste risco e desta maravilha, estão mandatados para serem mensageiros e arautos da força transformadora do perdão, sobretudo na vida pública, em qualquer uma das suas dimensões: na família para se manter fiel ao amor generoso e criativo, atento e compreensivo; na escola para cultivar com esmero pedagógico a qualidade do ensino/aprendizagem; na autarquia para constituir verdadeiramente a sede do governo local a bem do povo, sobretudo de quem realmente está empobrecido e desamparado; na empresa para saber empreender com acerto a harmonia entre as forças e os interesses presentes e as exigências do bem colectivo; na cultura para fazer com que algo valioso surja de novo e compreender o que vai ocorrendo, procurando fomentar a sua integração articulada com a herança que nos foi legada; na religião para purificar a consciência e perfilar a imagem do ser humano, tendo presente os traços do rosto de Deus Pai apresentados magistralmente por Jesus Cristo.

Revigorados por esta “mais valia”, podem os cristãos sentir-se solidários com todos os outros cidadãos que lutam pela prevenção de conflitos injustos ou pela sua sanação, que fazem parte das comissões de verdade e de reconciliação, que se dispõem a desempenhar a missão de jurados e legados da paz, que exercem a função de mediadores, que encontram maneira espontânea de ser prestáveis, de aconselhar, de se “pôr a caminho” para ajudar a serenar ânimos exaltados e conflituosos. Esta mais valia deve estar igualmente presente em todas as pessoas amantes da concórdia, do diálogo e da paz. “É a falar que a gente se entende” – diz o refrão popular carregado de sabedoria. E a experiência comprova-o abundantemente. E não se pode esquecer a responsabilidade dos que exercem profissões especialmente ligadas a esta área: agentes judiciários, policiais, publicitários, televisivos e navegantes da Net.

A paróquia, apesar da simplicidade de recursos realiza indiscutivelmente um papel de pulmão “oxigenante” do ambiente, tantas vezes, poluído da Igreja, uma função mediadora numa sociedade estruturalmente tensa e conflitiva, uma instância de reconciliação entre contendores rivais chamados a serem amigos e cooperantes.