A paróquia, enquanto comunidade renovada, constitui um dos espaços mais saudáveis de serviço público. Acusada, e por vezes com razão, de provocar doenças a nível de consciência, como o medo, a culpa, a ansiedade, o servilismo, o remorso, a insatisfação, a fuga do mundo, a frustração, tem vindo a renovar-se, a criar um novo estilo de relações interpessoais, a reorganizar as suas estruturas de serviço, a abrir modalidades de participação, a potenciar um ambiente sadio em tudo o que faz e celebra.
E ainda bem! De contrário, avolumar-se-iam as patologias que o ritmo da vida em sociedade suscita e desenvolve. De contrário, negaria a sua própria razão de ser: Igreja ao serviço da saúde integral da pessoa, abrindo horizontes de realização cristã.
Tradicionalmente, a instituição paroquial dispõe de quatro referências fundamentais para o exercício da sua missão: o templo onde os fiéis assistem à missa, recebem outros sacramentos e praticam as suas devoções; a sacristia, que funcionava como sala de catequese ou de reunião de qualquer irmandade e associação de piedade; o cartório, que ficava para tratar dos assuntos relacionados com a vida dos “fregueses”; e a casa dos doentes, onde lhes eram dispensados os cuidados possíveis, designadamente a extrema unção e o viático, e se preparava o funeral e acompanhava a família enlutada. O pároco surge como o encarregado da cura de almas que procura harmonizar as funções de pastor com as de administrador e funcionário.
A grande maioria das paróquias tem, hoje, outros recursos, humanos e materiais, para o trabalho pastoral. O sentido e alcance da missão estão notoriamente ampliados e renovados. O ar primaveril, que João XXIII pretendeu introduzir com a convocação do Vaticano II e Paulo VI implementou com sábia determinação, vai oxigenando formas de pensar e de organizar muitos espaços eclesiais. A movimentação do ar parece indicar o ritmo da renovação da Igreja conciliar: rajada no início, vento forte mais tarde, brisa suave, com tendência para acalmia ou para limitadas correntes ocasionais.
Os espaços celebrativos são amplos e cheios de luz. A sua remodelação foi, de forma geral, bem conseguida. O ambiente proporciona momentos de serenidade e beleza. A estética do conjunto “puxa” pelas vozes silenciosas do coração, que necessitam de uma brecha para se libertar. A assembleia abre a solidão amargada à comunhão de sentimentos e de respostas, quebrando as barreiras que aquela impõe.
A pessoa pode reencontrar-se e, entrando em si, contemplar o rosto de Cristo espelhado nas feridas da vida, repousar de fadigas pesadas, sentir o bálsamo da presença amiga, abrir-se à relação curativa, escutar a Palavra da salvação, reconhecer o Senhor Jesus que deixa à Igreja o seu precioso legado em jeito de tríplice imperativo: Ide e curai, ide e ensinai; ide e baptizai.
De facto, as comunidades cristãs primitivas narram o que Jesus fez e disse. Não manifestam grande preocupação por elaborar doutrinas sistemáticas, nem definir dogmas intocáveis. As narrativas decorrentes mostram-nos um homem, justo e bom, com uma vida digna e sã, preocupado em fazer o bem e em curar quem sofre de alguma enfermidade, decidido e corajoso na defesa da dignidade de todos, sobretudo dos “feridos da vida” e dos excluídos, pronto para a entrega, total e livre, por amor.
A narração termina, não na crucifixão e morte deste apaixonado “médico” da humanidade, mas na ressurreição que oficializa o seu proceder histórico como “terapia” de Deus para sempre.
O povo entusiasmado pelo exemplo de vida dos discípulos entra neste modo de ser, que se designa por caminho, e quer prossegui-lo com alegria e confiança. Surge, então, a comunidade dos que têm um só “coração” e uma só “alma”, dos que partilham os bens, vivendo unidos e solidários, dos que cultivam um sentido dinâmico para as suas lutas e canseiras.
É na comunidade que se faz o relato medicinal da vida de Jesus. É também aqui o local mais apto para o escutar, o saborear, o celebrar e ganhar forças para, depois, o testemunhar.
Por que temer a tempestade dos ventos da vida, a noite escura, os abismos da amargura, as miragens do deserto, os insultos dos descrentes, o abandono dos amigos, se Ele está connosco? – podem repetir os cristãos, rezando o célebre poema de São João da Cruz.
A paróquia, enquanto comunidade renovada que prolonga no tempo a acção de Jesus, evidencia o tipo proposto de saúde integral. É uma saúde que envolve todas as dimensões da pessoa; que lança raízes profundas no próprio ser humano; que liberta os bloqueios de uma vida saudável; que reconcilia e reconstrói a harmonia com Deus, com as outras pessoas, consigo própria, sem esquecer a integração dos bens da criação e do trabalho. É uma saúde que torna a pessoa mais desinibida e solta de movimentos, capaz de relativizar o seu bem-estar e de sacrificar a sua saúde por amor e em prol dos demais. É uma saúde que não se absolutiza como um novo ídolo, mas que se abre à salvação plena de Deus, para alcançar a “vida eterna”.
Que nobre missão terapêutica realiza a paróquia! Que segredos de libertação e cura estão contidos nos serviços humildes que presta e nos cuidados que dispensa! Que benefícios de interesse público brotam das suas obras e celebrações!
Os que sabem ler a vida e ver as situações podem facilmente encontrar resposta e interpretar a alegria das crianças, a busca de harmonia dos adolescentes, o sonho dos jovens, a esperança dos noivos e dos casais, a confiança dos idosos.
“A prevenção do crime em Portugal faz-se mais nas catequeses paroquiais do que em qualquer outra instituição educativa” – afirmava há dias uma voz autorizada nos meios judiciais e na área dos estabelecimentos prisionais.
De facto, este serviço da paróquia renovada proporciona a socialização sadia das crianças, o jogo e a festa, a libertação de energias negativas e agressivas, o conhecimento de verdades e a criação de hábitos, o convívio com outras gerações, a amizade com Jesus e o respeito pela natureza. Deste modo, o mundo é visto com outros olhos e apreciado com outros critérios. A harmonia vai dando sentido à vida e abrindo horizontes novos às rotinas diárias.
