Questões Sociais Com razão, muita gente está preocupada com a elevada taxa de abstenção verificada na última eleição presidencial: E, sem razão, afirma-se que o grande vencedor dessa, e de outras, eleições foi o «partido da abstenção»; sem razão, porque os abstencionistas não se encontram minimamente organizados de maneira comparável a um partido. E, se porventura fosse correcto vê-los em termos partidários, acontece que formariam não um partido mas sim vários.
Antes de mais, registe-se que existem abstencionistas sistemáticos e ocasionais. Os primeiros abstêm-se sempre, e os segundos só de vez em quando. Tanto uns como outros se subdividem em, pelo menos, dois grandes subconjuntos: Os que se abstêm por contestação; e os que se abstêm por desinteresse. Para além disso, não percamos de vista que muitos eleitores se abstêm devido a dificuldades várias, tais como doença, distância, trabalho, compromissos impeditivos, problemas com o cartão de eleitor.
Os abstencionistas por contestação e por desinteresse estão longe de formar subconjuntos uniformes: Quanto aos constestatários, há uns mais à esquerda e outros mais à direita; há os que aspiram a um regime ditatorial e os que preferem uma democracia mais participativa; há os que se queixam dos abusos do Estado e os que estão ressentidos porque os abusos não foram a seu favor ou porque se sentem vítimas de injustiça; há também os defensores do recurso à violência, para defesa dos seus ideais e interesses, e os que não põem tal hipótese…
O abstencionismo é, portanto, uma realidade profundamente fragmentada; só por leviandade se pode falar dele como um todo. Não se justifica lisonjeá-lo nem condená-lo. Igualmente, é pouco sensato responsabilizar por ele, exclusivamente, os órgãos de soberania, os partidos políticos e outras forças; mas não podemos ignorar que algumas forças, partidárias ou não, mesmo sem promoverem a abstenção, a utilizam para a constestação do sistema político, do sistema económico e dos candidatos ou partidos vencedores.
Toda a sociedade, política ou não, é interpelada pela abstenção; interpelada, para se criarem espaços de diálogo e participação, onde todas as correntes e pessoas tenham lugar.
