Poço de Jacob – 111 Dizem que todas as famílias têm o seu patinho feio. Por ser tocado pela sorte ou falta dela, pela boa ou má opção da circunstância, ou talvez pelo temperamento, pelos traumas, enfim, um mundo de coisas que condicionam a nossa vida, pode uma pessoa ser o patinho feio da sua família. Por vezes o mais rebelde. O mais deficiente. O que menos sorte teve na profissão, ou no casamento. O mais difícil no comportamento. E, incrivelmente, corresponde ao mais amado, aquele que mais preocupa os pais, o que mais exige atenção e lágrimas…
Nos Evangelhos, o patinho feio sou eu e somos nós, o filho pródigo, o fugitivo que tudo gastou e esbanjou, riquezas e herança, mas que teve direito a uma festa na sua chegada, causando a mágoa do filho, dito fiel… Para Deus, o patinho feio é a humanidade, e Ele nos espera para nos abraçar e acolher na sua Misericórdia.
Numa das minhas paróquias, um senhor de idade avançada chama “patinho feio” a um dos seus filhos, o mais azarado em tudo, casamento e saúde. Esse filho, canceroso, esteve gravemente internado. Em muitas ocasiões, disse-me o seu pai: “Vou ver o meu patinho feio”. O cancro tirou-lhe a voz e ele fala através de um aparelho aplicado na garganta. Está sereno e confiante apesar da situação irreversível. No dia da sua chegada à casa, o pai entra pela sacristia, antes da Missa, com uma inesquecível alegria estampada no rosto, e grita: “Sr. padre, o meu patinho feio já veio para casa”. Emocionou-me. Lembrei-me da alegria que há no Céu por um pecador que se converte. Lembrei-me como é importante para uma pessoa poder entender Deus como Pai, ter uma boa experiência do seu pai da terra. Lembrei-me como me sinto patinho feio por pensar que o Pai não fica contente quando me vê e senti que ele se alegra sempre que me aproximo dele. Lembrei-me que toda a nossa vida de patinhos feios é uma vida de belezas. Como dizia uma senhora, nesta quaresma: “Sr. padre, até quando sofro, agradeço ao Pai”. Lembrei-me que Deus não faz aceção de pessoas, onde houver um homem de bem, ele é amado por Deus. Que Deus busca a ovelha perdida. Que Deus nos ama sem ter em conta os nossos pecados, senão ninguém poderia salvar-se, como diz o salmo. Que a Misericórdia de Deus – pode-se dizer – é o Seu exercício preferido.
Ser patinho feio é simplesmente ser AMADO, apesar da pequenez e da feiura. “O meu patinho feio regressou”. Alegria naquela família, apesar da doença… “Ele está e isso nos basta, o resto, nós cuidamos dele”. E penso que só um pai de verdade e uma mãe de verdade sabem isso. Quantos casais se separaram quando a doença bateu à porta de um dos cônjuges! “Não te quero doente, dependente”, apesar de ter jurado amor na doença e na saúde, por toda a vida…
A dimensão da fé e o ser capaz de amar os outros com espírito de fraternidade, paternidade e maternidade é necessária para entender o patinho feio… Mesmo no casamento, mesmo nos padres e freiras. Há dias, diante da frieza de uma religiosa numa situação que nos emocionava, uma senhora de minha paróquia disse à freira: “Sabe, irmã, o que lhe faz falta? Ser mãe!” Então entenderia o patinho feio e seria capaz de dar um verdadeiro amor e voltar a emocionar-se. Tanta gente que se queixa da frieza de padres e freiras em colégios e hospitais, diante de situações ditas emocionantes, para a maioria. De facto, ser padre ou ser religiosa implica uma espécie de maternidade ou paternidade noutro âmbito da vida. Sem sentido de paternidade ou de maternidade ninguém se deveria consagrar, pois os patinhos feios andam por aí, à espera que os olhos misericordiosos de Deus se manifestem através dos que tem Fé… Por seres cristão tens de estar atento ao patinho feio da tua comunidade e dar-lhe o amor do Pai do Céu que é mãe também… Afinal, também tu, patinho feio, precisas do colo e do calor do Pai Deus para não te sentires rejeitado pela vida.
Vitor Espadilha
