Segundo tempo: Medital a Palavra

Lectio Divina – 4 A meditação não é um discurso racional. Não falamos no contexto da lectio divina do mesmo espírito meditativo comum por exemplo à tradição contemplativa ou até mesmo das correntes new age ou orientais que estão em voga. Meditar a Palavra é colocar toda a vida (inteligência, afeto e vontade) para compreender e saborear a Palavra que Deus nos dirige. No fundo, é compreender por dentro a Palavra de Deus partindo das referências e comentários para se encontrar como apoio e que nos fazem aproximar cada vez mais de Cristo. Implica centrar o tema principal da Palavra lida, saber situá-la no seu conjunto e no contexto em que aparece, para saber extrair o seu sabor mais autêntico e verdadeiro. Não é tanto perceber o que “a palavra me diz” fazendo logo uma ilação moral de como nos devemos comportar, mas centrar-se antes na verdade da própria Palavra e assimilá-la na própria vida percebendo o que ela me diz enquanto realidade divina a acolher.

Este tempo deverá começar pela atenção aos textos paralelos indicados no aparato crítico (notas de rodapé); deverá também apoiar-se em algum comentário bíblico para recentrar na mensagem essencial. O objetivo é ‘ruminar’ o texto, se for preciso, relê-lo e gostar dele, colocando a imaginação ao serviço e situando-me no próprio texto, nas suas cenas e personagens. Posso sintetizar tudo numa afirmação, de preferência da própria Escritura, e memorizá-la e repeti-la ao longo do dia. Ao encontrarmos a verdade presente no texto e sintetizando-a na nossa vida estamos a suscitar e abrir espaço para um diálogo com Deus, porque a Sua Palavra provoca e interpela.

Dialogar com Deus na meditação da Palavra é aceitar um novo momento nesta meditação: a Palavra de Deus ilumina a minha vida. Este é o momento da encarnação da Palavra, colhendo a sua sabedoria, confronto-a com a minha vida e encontro desafios que são luz para o caminho. Uma leitura orante da Palavra de Deus que não tenha esta preocupação de confronto, de luz e de leitura da própria vida à luz da verdade presente e oculta na própria Palavra, corre o risco de não ser tempo de oração e de encontro com Deus, mas de se ficar num espiritualismo devocional e reconfortante, mas que não provoca mudança ou conversão.

Neste tempo de meditação, quanto mais eu me encontro com a Palavra de Deus e o seu sentido mais profundo, mais eu percebo o que Deus me está a pedir e a exigir.

João Alves