Monsenhor João Gonçalves Gaspar viveu os últimos cinco meses num ritmo que poucos esperariam ser possível para os seus 84 anos. Como administrador da Diocese de Aveiro, percorreu várias vezes a Diocese. Esteve em encontros e procissões, presidiu a festas e reuniões, animou jovens e idosos… sempre com a frescura e disponibilidade de quem se entrega sem reservas ao serviço da igreja aveirense. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
Correio do Vouga – Com a entrada do novo bispo de Aveiro, nos dias 13 e 14 de setembro, chega ao fim o período de cinco meses em que foi administrador da Diocese. Quando, em 07 de abril, o Colégio dos Consultores o elegeu, o monsenhor disse que a eleição o surpreendeu. Este tempo de trabalho intenso e cansativo trouxe-lhe alguma surpresa?
João Gaspar – Efetivamente, a eleição de administrador da Diocese de Aveiro surpreendeu-me, porque eu tive sempre como norma da minha vida colaborar na ação dos nossos bispos, com simplicidade e sem condições… e mais nada. Embora o meu projeto particular desde a juventude fosse ser pastor em alguma comunidade paroquial, os vários prelados não entenderam assim e quiseram-me na sua proximidade.
É certo que, ao longo da nossa vida, pode haver – e há – surpresas, mais ou menos agradáveis; isto também ocorreu nestes meses. Posso dizer que continuei o mesmo percurso anterior na Diocese, embora com novas e imprevistas responsabilidades e sem olhar a cansaços acrescidos e a cuidados redobrados. Alguns acontecimentos surpreenderam-me particularmente; por exemplo, não é fácil esquecer o encontro Inter-Escolas, da iniciativa do Secretariado Diocesano do Ensino Religioso nas Escolas, no qual, em 02 de maio, na vila de Sever do Vouga, participaram alguns milhares de adolescentes e jovens estudantes, transbordando alegria e entusiasmo. Mas, o evento que singularmente me surpreendeu e me alegrou foi a escolha de D. António Moiteiro para bispo de Aveiro. Sem desprimor para qualquer um dos seus oito antecessores na cadeira episcopal, a Diocese tem fundados motivos para persistir a caminhar na esperança em Deus.
No dia 03 de janeiro de 2014, quando celebrou o sexagésimo aniversário de ordenação sacerdotal, D. António Francisco disse que o Monsenhor é o único padre que esteve ou presidiu a celebrações litúrgicas em todos os espaços de culto na Diocese de Aveiro. Nestes últimos meses, foi a algum local onde nunca tivesse estado?
De facto, no âmbito da Diocese de Aveiro e ao longo da minha vida sacerdotal, estive em todos ou quase todos os lugares de culto… e mais do que uma vez ou mesmo dezenas de vezes, quer acompanhando os nossos bispos, quer sozinho. Para aí chegar, percorri e espero teimar em percorrer autoestradas, estradas, caminhos de aldeia, veredas, azinhagas e até as águas da ria, com o único e gratificante desejo de estar e celebrar com as pessoas e com as comunidades. Todos os lugares, aonde me desloquei durante estes meses, já eram meus conhecidos – e alguns há muitos anos.
É sabido, até pela sua tendência de historiador, que gosta de registar os factos. No encerramento da “missão jubilar”, publicou a edição, revista e atualizada, da história da Diocese de Aveiro. Depois destes cinco meses, alteraria alguma página ou introduziria mais qualquer coisa?
O texto descritivo da segunda edição do meu livro “Diocese de Aveiro – Subsídios para a sua história” termina em 11 de dezembro de 2013 – precisamente no dia em que a Diocese completou os setenta e cinco anos da sua restauração. Por agora, nada tenho a alterar nessas oitocentas páginas. Mas, se a descrição avançasse até 14 de setembro próximo, acrescentaria algo sobre a atividade pastoral de D. António Francisco dos Santos como bispo de Aveiro, desde aquela data jubilar até 21 de fevereiro de 2014 – quando foi nomeado bispo da Diocese do Porto – e sobre a sua administração desde este dia até 05 de abril – data em que iniciou oficialmente as suas novas funções episcopais. E seria imperdoável se não registasse a sentida manifestação pública de gratidão a D. António Francisco, com a Eucaristia na sé e a despedida no adro anexo, que decorreram na tarde de 09 de março; o prelado, no termo das suas palavras, exclamou: – «Vou para o Porto, por decisão do papa Francisco e por obediência à Santa Igreja; mas continuarei a ser aveirense de coração.»
O que tivesse a introduzir sobre a minha administração reduzir-se-ia a muito pouco. Além da reunião do Colégio dos Consultores, em 07 de abril, na qual fui escolhido para exercer o múnus de administrador, aludiria certamente à Jornada Mundial da Juventude, concretizada na cidade de Aveiro (12 de abril), ao Dia Diocesano do Catequista na freguesia de Santa Joana (25 de abril), ao Dia do Corpo Nacional de Escutas em Avanca (27 de abril), ao já referido Inter-Escolas e à bênção dos finalistas do ensino universitário e superior. Como remate, apontaria com relevo a cerimónia da “tomada de posse” de D. António Moiteiro e a sua primeira celebração oficial na sé, que irão acontecer nos próximos dias 13 e 14 de setembro.
Que receios e esperanças tem hoje quanto à comunidade humana e cristã da Diocese de Aveiro?
Fui sempre otimista, apesar das possíveis apreensões; jamais esquecerei o que, ainda jovem, frequentemente ia ouvindo de um meu conterrâneo e vizinho, quando dialogávamos sobre o mundo futuro: – João, lembra-te de que “Deus super omnia”; e acrescentava: – Deus está presente em tudo e acima de tudo. Como sempre me considerei um caminhante na esperança, acredito que, com o testemunho sincero e a ação persistente dos cristãos e dos homens e mulheres de boa vontade, a comunidade humana ultrapassará possíveis crises de autênticos valores para enveredar em caminhos de mais sincera fraternidade.
Foi ordenado presbítero pelo primeiro bispo da Diocese restaurada e foi secretário dele e dos dois bispos seguintes, e vigário-geral dos dois últimos; agora, quando a Diocese se prepara para receber D. António Moiteiro, como descreve em poucas palavras a faceta de cada um deles?
Tomo a liberdade de regressar à primeira Diocese para rememorar os seus bispos. Deste modo, não posso olvidar o labor organizativo e solícito de D. António Freire Gameiro de Sousa, a preocupação doutrinal e caritativa de D. António José Cordeiro, a abnegação generosa e ilimitada de D. Manuel Pacheco de Resende, o trabalho estruturante e aglutinador de D. João Evangelista de Lima Vidal, a vitalidade entusiasmante e apostólica de D. Domingos da Apresentação Fernandes, a ação serena e prudente de D. Manuel de Almeida Trindade, o dinamismo profético e constante de D. António Baltasar Marcelino e a proximidade bondosa e dialogante de D. António Francisco dos Santos.
Estou convicto de que D. António Moiteiro, dotado por lucidez de espírito e por afoiteza na ação, com uma total vontade de servir e com o seu jeito peculiar e carisma pessoal, continuará efetivamente o rumo pastoral dos prelados anteriores, sendo o humilde «portador de Deus e apóstolo da sua bondade», na linha de Santo Inácio de Antioquia. «É preciso que Jesus reine» – é o seu lema, com o anseio de procurar dar realidade ao sonho do Apocalipse (11, 15): – «A realeza do mundo passou agora para nosso Senhor e para o seu Cristo; e Cristo vai reinar para sempre.»
Tem elementos, nomeadamente sobre o programa, que nos possa facultar relativamente aos dias 13 e 14 de setembro?
Segundo o previsto, o sr. D. António Moiteiro iniciará o múnus episcopal na Diocese de Aveiro, com o seguinte programa: – 13 de setembro: 11h00 – Cerimónia da “tomada de posse”, junto do túmulo de Santa Joana, em reunião com o Colégio dos Consultores. – 14 de setembro: 15h30 – Paramentação dos bispos e dos sacerdotes na igreja de Jesus (Museu de Aveiro); 16h00 – Cortejo para a sé, onde, sob a presidência do novo bispo de Aveiro, será concelebrada a Eucaristia pelos bispos e pelos sacerdotes e em que participarão os diáconos, as religiosas, os representantes de outras Igrejas, as autoridades civis, militares e académicas e todos os cristãos.
D. António Moiteiro vai iniciar oficialmente o seu ministério episcopal em Aveiro junto do túmulo da princesa Santa Joana. Como vê esta escolha?
Quando se pôs a hipótese do local que servisse para a reunião do Colégio dos Consultores, com o fim de se realizar o início oficial do ministério de D. António Moiteiro como bispo de Aveiro, ele próprio preferiu que tal celebração fosse junto do túmulo de Santa Joana, padroeira da Cidade e da Diocese de Aveiro. A diretora e os responsáveis do Museu de Aveiro anuíram logo, sem qualquer reserva e com muito prazer. O nosso prelado, desde a primeira hora, confia na intercessão de Santa Joana, que viveu no Mosteiro de Jesus, onde morreu e ficou sepultada. A princesa, que com decisão teimou por ser de Aveiro contra tudo e contra todos, recordar-nos-á que amar a Deus é servir, intercederá por nós, servir-nos-á de incentivo para avançarmos com coragem e jamais desmentirá a promessa que fez pouco antes de falecer: – «Rogo que, após o meu passamento e se eu o merecer, o meu corpo seja sepultado no coro deste Mosteiro; assim lembrar-me-ão mais facilmente a Deus e eu também não vos esquecerei no além eterno.»

