Pobre em ouro, rico em… sabedoria

À Luz da Palavra – XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano B A Palavra deste domingo conduz-nos à reflexão sobre a sabedoria que nos vem de Deus. Esta sabedoria é fruto da escuta atenta e reverente da Palavra de Deus e da disponibilidade interior para nos deixarmos confrontar com ela, no que toca aos valores que assumimos e aos sentimentos e atitudes que expressamos. Vamos adquirindo a sabedoria ao longo da nossa vida, pela relação íntima com a Palavra de Deus.

A primeira leitura, diz-nos que o autor do livro da Sabedoria a preferiu aos ceptros e tronos e, em sua comparação, considerou a riqueza como nada. Amou-a mais do que a saúde e a beleza e decidiu tê-la como luz. Este homem, porque recebeu de Deus a capacidade de apreciar e interpretar a vida e os acontecimentos à luz dos critérios e da lógica de Deus e soube viver de acordo com as suas opções, foi sábio e feliz. Com a recepção da sabedoria lhe vieram todos os outros bens e riquezas.

A segunda leitura afirma que é pela obediência à Palavra de Deus, que é viva e eficaz e penetra no mais fundo de nós mesmos, que nos vem a sabedoria, isto é, o dom de fazermos bons discernimentos e tomarmos as atitudes que mais nos sintonizam com o projecto de Deus para cada um de nós.

No evangelho, Marcos coloca-nos diante de um encontro de Jesus com um homem rico. Este homem tinha grandes e justas aspirações. Queria ser plenamente feliz, alcançar a Vida eterna, a qual não se refere apenas à vida para além desta vida, mas refere-se também à vida de qualidade que começa aqui e agora, dentro do nosso coração. Jesus percebeu a ânsia deste homem e quis conduzi-lo mais longe, na sua relação com Deus, através da pessoa de Jesus. “Vai vender o que tens, dá o dinheiro os pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me”. Era exactamente isto que o interlocutor de Jesus precisava de fazer para ser plenamente feliz; mas como lhe faltava a sabedoria para as boas opções, preferiu retirar-se pesaroso, em vez de seguir a palavra de Jesus, “porque era muito rico”, acrescenta Marcos.

A atitude deste homem foi inversa à da do autor da primeira leitura. Este considerou a riqueza como nada, comparando-a com a sabedoria. Aquele preferiu conservar a sua riqueza, ainda que isso não lhe desse felicidade. Não é que os bens materiais sejam incompatíveis com a sabedoria que vem do Alto; mas há que saber hierarquizar os valores e perceber que os únicos bens que não murcham, nem acabam, são os que se referem à nossa vida de relação com Deus. Esta é uma verdade que muitos de nós esquecemos e que põe em acentuada crise as pessoas do mundo actual. Os cristãos e as cristãs que escutam a Palavra de Deus e que a deixam penetrar nas suas “vísceras”, com a sua vivacidade e eficácia, são sábios e, embora neste mundo, vivem já em vida eterna. Estou disposto a aceitar o desafio que a Palavra de Deus hoje me faz?

Leituras do XXVIII Domingo Comum – Ano B: Sb 7,7-11; Sl 90 (89); Heb 4,12-13; Mc 10,17-30

Deolinda Serralheiro