Policarpo: muitos frutos em nome da fé

Vidas que marcam Policarpo, bispo de Esmirna (na actual Turquia) morreu mártir, queimado numa perseguição romana, no ano 155. Tinha 86 anos, uma idade muito excepcional para a época. Antes de morrer, exclamou perante o procônsul romano Antonino Pius: “Durante 86 anos fui servo de Jesus, e ele não me fez mal algum. Como posso blasfemar contra o rei que me salvou?” E ao subir para a fogueira, no meio do estádio da cidade, rezou: “Sede bendito para sempre, ó Senhor; que o vosso nome adorável seja glorificado por todos os séculos”. O relato do seu martírio é o mais antigo do martirológio cristão.

Policarpo (cujo nome significa “muitos frutos” – poli+carpo) é um dos padres apostólicos, isto é, um daqueles crentes da segunda ou terceira geração da era cristã que conheceram apóstolos, mas não o próprio Senhor. Policarpo foi feito bispo pelo apóstolo João, diz a tradição. E Irineu de Lião escreve a Florino, um padre romano caído na heresia: “Posso dizer até o lugar em que o bem-aventurado Policarpo se sentava para dirigir a sua palavra, como entrava no assunto, e como terminava as suas instruções, posso relatar o seu género de vida, a forma do seu corpo, as práticas que dirigia à multidão, como contava o seu relacionamento com João e com os outros que viram o Senhor e como recordava as palavras deles e o que tinha ouvido deles acerca do Senhor, quer sobre os seus milagres quer sobre a sua doutrina. Policarpo relatava tudo de acordo com as Escrituras, visto que a tinha recebido das testemunhas oculares do Verbo”.

Dos escritos de Policarpo só se conserva uma carta aos Filipenses, a quem Paulo também escrevera. Por isso, o bispo afirma: “Nem eu nem ninguém poderá competir com a sabedoria do bendito e glorioso Paulo. Presente entre vós e cara a cara com os de então, ensinou com agudeza e autoridade a Palavra da Verdade. Ausente, escreveu-vos cartas que, se as estudardes seriamente, vos farão crescer na fé que recebestes – fé que é nossa mãe comum, enquanto tiver por companheira a esperança e sobretudo o amor de Deus, a Cristo e ao próximo” (Fl 3,1-3).

Policarpo é venerado por ortodoxos e católicos. No Ocidente, o seu dia litúrgico é 23 de Fevereiro.

Sacrifício agradável

“Senhor Deus omnipotente, Pai do vosso amado e bendito Filho Jesus Cristo (…), eu Vos bendigo porque Vos dignastes, neste dia e nesta hora, incluir-me no número dos vossos mártires, fazer-me tomar parte no cálice do vosso Ungido e, pelo Espírito Santo, alcançar a ressurreição na vida eterna, na incorruptibilidade da alma e do corpo; no meio dos vossos mártires Vos peço que eu seja hoje recebido na vossa presença como sacrifício abundante e agradável, tal como Vós o tínheis preparado e mo destes a conhecer, e agora o realizais, ó Deus verdadeiro e sem falsidade”.

Excerto da oração de Policarpo, no momento do martírio, conforme a “Carta da Igreja de Esmirna sobre o martírio de São Policarpo”