Perspectiva cristã da política “Há uma maneira cristã de olhar para a realidade política”, afirmou D. Manuel Clemente, bispo auxiliar de Lisboa, nas jornadas que reuniram em Fátima responsáveis de meios de comunicação social de inspiração cristã, nos dias 22 e 23 de Setembro. Essa “maneira cristã”, num contexto em que a laicidade é algo de positivo, consiste em assumir valores que, antes de serem confessionais, são humanos (ver texto no topo da página), porque a fé os ilumina.
Isto, a teoria. A prática foi dada a partir do trabalho de profissionais ligados à comunicação social e por um ex-ministro (ver texto ao fundo).
Pe. Peter Stilwell, teólogo e assistente da Rádio Renascença (RR), notou algum desconforto no convívio da Igreja Católica com a pluralidade religiosa e política das sociedades ocidentais. “Na sociedade pós-moderna, afirmar com toda a contundência a verdade faz de nós [Igreja] mais um fragmento”, disse, pelo que um órgão como a RR tem de noticiar os dois lados em confronto, como no caso do aborto, ainda que em espaços como as notas editoriais, se afirme pela defesa da vida.
Propaganda destrói credibilidade
A mesma ideia de pluralidade seria mais tarde secundada por José Luís Ramos Pinheiro, anterior director de informação da RR, que acrescentou que é necessário “distinguir o trigo do joio; não confundir notícias com opinião; não misturar acontecimentos com propaganda; não confundir o respeito pelas fontes com subserviência”. Esse princípios fazem da informação política da RR “partidariamente isenta”, “exigente” e “sem fretes”. “A propaganda é o caminho mais fácil para a destruição da credibilidade”, afirma o agora gestor da cadeia da rádios líder de audiências em Portugal.
Pe João Aguiar, ex-director do Diário do Minho, recordou que “não tendo a Igreja um partido próprio e não autorizando que nenhum se reivindique dono da sua visão sobre o Homem e o bem comum”, os seus jornais “têm de estar abertos ao pluralismo e à diversidade de opiniões”, e alertou para o perigo da “municipalização dos meios de comunicação social” regionais, isto é, a dependência em relação a políticos locais. Já o Pe Armando Duarte, presidente da ARIC (Associação de Rádios de Inspiração Cristã), reconhecendo as “tentações do poder”, sublinhou a acção das rádios ao nível da promoção artística, patrimonial, artesanal e “todo um trabalho ao serviço da cidadania”.
Francisco Sarsfield Cabral, falando como comentador político da RR e do Diário de Notícias, afirmou que “há uma tendência para exagerar a importância dos comentadores na opinião pública” e confessou como preocupações nos seus comentários “ajudar a entender as coisas” e “mostrar transparência”.
J.P.F.
A Política segundo António Bagão Félix
Numa visão que o próprio classificou como “pessoal, logo, subjectiva e intimista”, António Bagão Félix, apresentou, nas jornadas de Fátima, “7 grandes regras que a política deve ter” e algumas lições que aprendeu em três anos de ministro (no último governo PSD/CDS-PP) e sete de secretário de Estado. “Fui um cristão ministro e não um ministro cristão”, disse, reconhecendo que, como político no governo, houve dentro de si uma “guerra civil” entre aquilo que queria fazer e aquilo que acabava por fazer. No entanto, “quero acreditar que o ser católico me influenciou no melhor sentido”, disse.
As regras da política:
1) O Estado existe para servir a sociedade (e não contrário).
2) A política exprime-se com sentido geracional. “Não se esgota num período, num território, numa aparência”.
3) A acção política não se pode limitar às “politics”, mas deve ser de “policies” (termos ingleses que opõem política como tácticas partidárias e como opções de interesse público).
4) A política deve exprimir-se através da verdade nas palavras, serviço na atitude, autenticidade na acção e sensibilidade na relação.
5) Coragem de decidir – com opções, renúncias e erros (“assumir e aprender com os erros é condição essencial”).
6) Os meios são escassos e não se auto-alimentam (“a verdadeira medida moral da política é defender os mais desprotegidos”).
7) A política é uma questão de limitação e não de perpetuação (ou seja, “serviço e não domínio”, “verdade e não ilusão”, “austeridade comportamental e não benefício próprio”).
A estas “7 grandes regras”, António Bagão Félix acrescentou um princípio: “A política deve contentar-se em resolver os problemas em vez de procurar os culpados”; e algumas “lições” que aprendeu. Uma delas é que “devemos ser em tudo na vida pessoas que se envolvem profundamente, mas que não perdem a liberdade”. E acrescentou o exemplo dos ovos e do “bacon”. A galinha deu os ovos. Envolveu-se. O porco deu o bacon. Comprometeu-se.
O antigo ministro lembrou ainda que, “na política, pode haver sorte, mas é fundamental que haja trabalho. Só no dicionário é que ‘sorte’ vem antes de ‘trabalho’”. E que é perigoso ter uma ideia abstracta das pessoas, da família, dos idosos. “Os números anestesiam. Ao discutir números estávamos a fazer pior política. E eu fi-la”, disse. Por outro lado, reconheceu que, “em Portugal, é difícil aplicar o princípio da subsidiariedade” [o que uma instância inferior pode fazer não deve ser feito por uma instância superior – princípio responsabilizante], pois os portugueses tendem a esperar que “o Estado resolva tudo”.
Na actividade política de Bagão Félix foi fundamental o apoio da família. “Mesmo na política, os políticos costumam ter família. A família dá capacidade de resistência”, afirmou. Numa nota final, o antigo ministro da Segurança Social e, a seguir, das Finanças confessou que, na sua actividade, o momento de maior angústia foi não poder aumentar a reforma dos pensionistas, o de maior luta foi a elaboração e aprovação do Código de Trabalho, e o de maior tristeza, além da crítica à sua acção por parte da Comissão Nacional de Justiça e Paz (órgão ligado à Igreja Católica e anteriormente presidido por Bagão Félix), foi o “ignóbil ataque por parte de lóbis poderosíssimos” de sectores a que pertencia antes de estar no governo. Ou seja, a banca.
