3 casos, 3 adolescentes, 3 famílias incomodaram-me nos últimos tempos. Não são casos mediáticos, mas podiam-no ser. Quando mediatizados pela televisão, internet e jornais, sensibilizam-nos. Mas, a certa altura, de tão falados e comentados, entram na esfera do improvável e criamos uma capa de insensibilidade quando ouvimos falar deles. Depois, há os casos com que nos cruzamos no nosso dia-a-dia, que nos relembram que são pessoas, famílias que sofrem e que vivem a esperança do reencontro ou da reconciliação. De uma vida nova.
3 casos. O primeiro parou-me, na rua. Com quase 14 anos, cara tristíssima, mexia freneticamente no telemóvel. Uma irmã de três anos, que não conhece, vai entrar na sua casa, fugida a maus-tratos. O segundo passou por mim, de fugida. Com quase 13 anos, gritos estridentes, corria freneticamente entre as carteiras de uma sala de aula. O pai quer por força o convívio filial, que rejeitou em mais de metade da vida daquele que gerou. O terceiro procurou-me, discretamente. Com quase 12 anos, olhos grandes marejados de azul, límpidos e inocentes. O abandono materno causa-lhe enorme sofrimento, escondido atrás de problemas financeiros que confessa a toda a hora.
3 casos que confirmam a força da família e a dificuldade parental na organização quotidiana. Nenhum destes casos parece improvável; infelizmente conhecemos muitos, até bem mais graves. O absurdo pode ler-se no facto de estas pessoas de 11, 12 e 13 anos terem de suportar problemas de adultos, numa idade em que começam os problemas da adolescência. Por que não é poupada aquela criança de 11 anos às dificuldades financeiras do seu agregado familiar? Provavelmente até se considera positivo que o filho partilhe das preocupações dos pais. É verdade, mas sempre dentro de uma certa razoabilidade, atendendo à sua idade e crescimento. E não se obriga a gostar de alguém, como aquele que quer forçar o filho a gostar dele, ou que justifica o abandono parental como uma fase do crescimento do adulto.
3 casos multiplicados por milhares. Na maior parte das vezes, são as Escolas que dão o alerta, e que orientam as famílias para resolver as situações. Porque é na Escola que as crianças encontram quem as ouve.
Fui injusta, quando te respondi que a minha semana tinha corrido normalmente, sem nada a assinalar. Tu, tão entusiasmado com a tua, e eu não valorizei a minha! Sim, afinal também a minha semana tinha “corrido muito bem”. “Só” me fizeste ficar contente por ti, esquecida que também eu tinha motivos para estar “muito bem”. Esqueci-me de fazer a revisão do dia. Era já tarde para to dizer: era estranho telefonar-te àquela hora, depois de ter falado contigo e te ter dito que não havia “nada a assinalar”.
Obrigada! Obrigada, por me fazeres olhar para trás e responder “Bom dia!” àquele rapaz que, de tanto nos cruzarmos, passou a cumprimentar-me. Obrigada, por me fazeres olhar para trás e parar, para ouvir quem está incomodado com situações de injustiça laboral. Obrigada, por me fazeres relembrar as aulas que correram “muito bem”, porque os alunos gostam de aprender. Obrigada, por me fazeres reapreciar os cartazes publicitários dos alunos para divulgar o “Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Todos” – Que fariam inveja a qualquer publicitário! Obrigada, por me fazeres rever a presença das famílias, naquele grupo de meninos na escola a comer o seu pãozinho, a meio da manhã. Obrigada, por me fazeres dar por bem empregue o tempo em que preparei a catequese. Obrigada, por me fazeres olhar para trás e alegrar-me com a presença da minha família naquela tarde de Domingo.
Obrigada, porque me fizeste olhar para trás e por me lembrares que devo fazer a revisão do meu dia, e encontrar motivos de gratidão nas pequenas coisas que me acontecem. Obrigada!
