Portugal está feio

1 – O presente é o tempo de Deus! Vive esta hora!

É importante sonhar, desenhar, programar o futuro. Mas importa viver o presente. E vivê-lo com todo o discernimento: definir-lhe os contornos, comprovar a sua consistência, avaliar as suas exigências e medir a capacidade de resposta.

Atolados no pântano da contrainformação, da astúcia, da mentira generalizada, não é fácil – mas é indispensável! – descobrir de onde viemos até aqui. Sem memória do caminho percorrido, será difícil imaginar um destino fiável.

É nestas circunstâncias que urge equacionar o futuro divisado com a realidade que se vive no momento presente. São os passos consistentes do presente que nos permitirão emergir num futuro possível. E um passo de cada vez, como dizia John Henry Newman: “Guia-me, ó luz delicada, na escuridão que me envolve, guia-me! A noite está escura e eu estou longe de casa: guia-me! Guarda os meus passos! Não te peço que possa ver o horizonte longínquo, pois basta-me um passo de cada vez!”.

É urgente mostrar aos que realizarão o futuro uma vida com sentido, com ideais mas concreta, de pés assentes na terra, construído por pessoas libertas de propostas mágicas. É urgente alterar uma des(educação) que oculta as dificuldades, que desvia o esforço, que esconde as dores, por uma educação que treine na resistência, que faça subir a fasquia, que permita ousar para além de cada passo dado.

A educação será o processo que ajuda a encontrar, mesmo sob os rios de lama que nos circundam, as pedras escondidas que nos permitem progredir. Com a memória do passado e a indicação segura desse caminho seguro, buscado persistentemente, é possível direcionar os nossos olhos para um horizonte de esperança!

2 – As crianças são a coisa mais bonita do mundo. Será compreensível, por isso, a conclusão de que Portugal está a ficar mais feio. Porque as crianças já não têm tempo para o ser, livres como os passarinhos; porque muitos pais já não amam as crianças; porque muitos já não querem ser pais de crianças…

Sem o princípio de que a vida é um dom que se acolhe e não um bem de que se dispõe, sem a convicção de que gerar, promover e defender a vida é uma honra gratificante e não um peso insuportável, sem a atitude de realizar a vida como um caminho de felicidade irradiante e não como um narcisismo de autoconsolação…, nunca será possível superar qualquer inverno demográfico, restabelecer uma primavera harmoniosa de mil tons, plena de cor, inebriante de fragrâncias.

Lamenta-se que o índice de natalidade no país torne cinzento o seu futuro. Pena que a perspetiva seja a de quem destrói a beleza da vida calculando-a apenas como um fator de equilíbrio da economia ou de garantia de segurança social. Essa visão míope nunca trará de volta o sol da primavera!