“Portugal tem de deixar a visão lamurienta”

Economia baseada no conhecimento Poucos dias antes de Bill Gates vir a Portugal assinar projectos de cooperação entre a Microsoft e o governo português, com a finalidade de preparar um milhão de portugueses para as novas tecnologias, realizou-se em Aveiro um encontro que ajudou a descortinar para onde caminhamos a passos largos: uma sociedade com economia baseada no conhecimento.

Mário Murteira, antigo ministro, falando a convite da Comissão Diocesana Justiça e Paz de Aveiro, com o apoio da Comissão Justiça e Paz Nacional, afirmou que estamos a entrar numa “economia baseada no conhecimento” (EBC) e alertou para algumas tensões. A primeira é de nível global. Aumenta o fosso entre os países da EBC e o Terceiro Mundo. A ONU já reconheceu que não consegue diminuir, dentro do prazo previsto (até 2015), a fome, o analfabetismo, a mortalidade infantil, entre outros indicadores a que tinha chamado “Objectivos do Milénio”. A segunda tem a ver com Portugal. O nosso país encontra-se “na cauda do pelotão dos mais avançados, estando em particular atrasado relativamente à capacidade inovadora”. Ou seja, arrisca-se a ser uma espécie de criado ou subalterno dos países mais ricos. A terceira é inerente ao processo em curso e diz respeito à submissão do conhecimento ao mercado. Por outras palavras, conhecer e descobrir deixam de ser um prazer típico do ser humano para terem apenas o propósito de “ganhar dinheiro”.

Do campo e da fábrica para o escritório

Mas o que é afinal a EBC? É o sistema económico onde predominam os serviços e onde as actividades económicas em geral são intensivas em conhecimento. Se anteriormente o motor da economia estava nas fábricas (e a maior parte da mão-de-obra era constituída por operários) e, antes disso, no sector básico, no-meadamente na agricultura, agora a riqueza é maioritariamente produzida pelos serviços. E, dentro destes, destacam-se aqueles que exigem investigação e inovação (tecnologias, saúde, criação de novos produtos, design…). As pessoas deixaram de trabalhar no campo, para trabalhar na fábrica e, mais tarde, passaram da fábrica (em alguns casos, vieram directamente do campo) para o escritório, a escola, o laboratório, o gabinete, o ateliê.

A EBC marca a globalização. É o cerne da globalização, definida pelo economista como “a existência de um único mercado à escala global”. Neste mercado único, notam-se grandes traços, conforme Mário Murteira expôs no CUFC e escreveu no livro da Comissão Nacional Justiça e Paz: crescente interconexão ou interdependência entre as diferentes economias nacionais; influência das novas tecnologias da informação e comunicação nas economias e sociedade; modificação na natureza do Estado nacional, que, em grande medida, escapa ao seu próprio controlo.

Riqueza dependente do factor humano

Portugal, na visão do professor Murteira, tem possibilidades de desempenhar um papel relevante neste tipo de economia. A EBC não está dependente de riquezas naturais, nem da condição geográfica de um país. Depende, sim, da formação dos seus recursos humanos. Portugal, apesar das “anomalias de calendário” – expressão usada por Mário Murteira para se referir à descolonização retardada e ao predomínio de políticas marxistas, no pós-25 de Abril, já abandonadas por outros países –, deve deixar a “visão lamurienta” e abraçar uma “engenharia de reformas”. Nas palavras de um elemento da assembleia, “há dois ‘Portugais’: um que passa o tempo [ou deseja passar] nos coktails, nas revistas e na televisão; e outro que dá cartas a nível global. É este que importa generalizar”.

Alargando o seu olhar à Europa, Mário Murteira lamentou a não existência de organismos que mantenham a coesão social [referência à Constituição Europeia?], no contexto da EBC e da globalização.