Desigualdade social e degradação ambiental são limites da globalização

Manuela Silva, presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, esteve na sessão de Aveiro, no dia 28 de Janeiro, e falou ao Correio do Vouga sobre a nova Comissão e seus projectos. CNJP é um organismo laical da Igreja Católica, que tem por finalidade promover e defender os ideais da justiça e da paz, à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. A comissão actua sob a sua própria responsabilidade.

Quais são as prioridades da CNJP?

Temos três grandes áreas de preocupação. A primeira é “economia e sociedade”. É uma grande área. Abrange quase tudo. Temos dez pessoas a estudar as questões do conhecimento, das empresas, da globalização. A segunda é o observatório sobre a proliferação de armas, que junta políticos, Defesa, Negócios Estrangeiros, administração local e outros interessados. Portugal é uma placa giratória do comércio ilegal de armas. A área mais recente é a da educação para o desenvolvimento: levar jovens das escolas secundárias e de algumas paróquias a terem mais conscientização do desenvolvimento a nível mundial, a compreenderem a desigualdade e a abrirem-se para novas formas de intervenção.

Para a actual Comissão transitou metade dos elementos da equipa anterior e vai haver continuidade de métodos, com muito trabalho em rede, com muitas parcerias com as Comissões diocesanas e outros movimentos.

Como vai ser feito esse trabalho com jovens?

É um projecto-piloto. Será uma formação em dois módulos, para ser aplicada em grupos de 20 a 25 pessoas. A formação, pelo menos na fase inicial, decorrerá somente em Lisboa. Estamos neste momento a contratualizar a formação com colégios e escolas. O primeiro a avançar deverá ser o colégio de S. João de Brito.

A Comissão tem falado e escrito sobre a globalização. É uma das preocupações?

A globalização é um fenómeno em curso. Em si mesmo tem potencialidades. Mas também tem de ter limites, porque a transformação social decorre a velocidade diferente. É mais demorada. É necessário compensar de alguma forma a globalização desregulada, com acções que permitam corrigir as suas disfunções, de modo a evitar a desigualdade social e a degradação ambiental. É preciso gerar sustentabilidade, refrear interesses e focos de tensão. Sem alguma forma de regulamentação da globalização, podemos ser confrontados com novas formas de terrorismo, muito mais poderoso.

Neste contexto, como vê a acção da Igreja e dos cristãos?

A Igreja Católica tem uma grande responsabilidade: conscientizar os seus fiéis no sentido do que a DSI recomenda. [Doutrina Social da Igreja – conjunto de princípios sobre a economia e a sociedade, fundados na dignidade humana e na revelação cristã. A DSI defende, entre outros aspectos, a solidariedade entre todos os seres humanos, a partilha dos bens, o desenvolvimento sustentável, a subsidiariedade, a iniciativa privada, os direitos humanos]. E pode fazê-lo através da Palavra, da Liturgia e da Caridade. Bento XVI, na sua encíclica, diz-nos isso mesmo. Não podemos falar de Deus-Amor sem nos comprometermos socialmente com a justiça e a paz.