“Cada vez há mais presos e estão mais longe de tudo. A sociedade organizada não liga à sociedade desorganizada”, afirma P. João Gonçalves, nas vésperas de partir para um encontro que, em Ciudad Rodrigo, cidade fronteiriça de Espanha, congrega responsáveis da pastoral prisional (ou penitenciária – como se diz no país vizinho, pretendendo abranger a prevenção e a reinserção e não apenas o período atrás das grades) dos dois lados da fronteira, nos dias 16 e 17 de Maio. Este encontro sucede a um outro que decorreu nos dias 18 e 19 de Abril, em Badajoz, particularmente destinado às Dioceses do Sul de Portugal e de Espanha.
Da primeira parte do I Encontro Interdiocesano Hispano-Luso de Pastoral Penitenciária saíram umas conclusões provisórias em que se pode ler: “O grande desafio que se põe a Capelães, Visitadores e Dioceses é sempre a certeza de que Cristo está na Prisão e lá O vamos encontrar e visitar; de que os Reclusos são Igreja, são baptizados – ou não – que sofrem, por quem temos de ter um “amor preferencial”; de que a lembrança que a Igreja nasceu com uma forte ligação às prisões e a Presos (Cristo esteve preso, tal como os Apóstolos e tantos outros Cristãos…) nos deve mobilizar para uma presença sempre nova, generosa e jubilosa no serviço libertador da pessoa que sofre; de modo a sentirmos a Cadeia como um lugar de verdadeiro «encontro teológico»”.
«Encontro teológico» quer dizer encontro com presença di-vina. Não se trata de um desejo. É uma realidade, como testemunham P.e João Gonçalves e a Ir. Louise Bonnet, voluntária no Estabelecimento Prisional de Aveiro (EPA), em declarações ao Correio do Vouga. No dia de Páscoa, em Aveiro, um grupo de reclusas, por sua própria iniciativa, juntou as visitas e entoou cânticos religiosos, comovendo quem com elas cantou ou simplesmente assistiu. É encontro, também, teológico ou não, quando os reclusos conseguem na prisão a amizade com que nunca foram agraciados fora dela – como refere o Capelão e a visitadora do EPA. Não admira, pois, que, para alguns, a saída da prisão, além da incerteza que comporta quanto ao sustento económico, significa a perda de amizades sinceras. A reinserção do ex-recluso é questão a que não tem sido dada resposta satisfatória.
O amor aprende-se
Nos encontros dos responsáveis dos dois países ibéricos, a que têm assistido alguns bispos (mais espanhóis que portugueses), debate-se o perfil do voluntariado católico dentro das prisões e estudam-se formas de cooperação. Em Badajoz, numa das palestras, afirmou-se que “o Amor é uma competência e, por isso, ele aprende-se; não pode ser apenas um sentimento nem mero voluntarismo, nem sequer uma opção: o Amor é uma condição de existência; sem Amor, a Igreja não é”.
O amor é o traço principal da identidade do católico que faz voluntariado na prisão e é a grande lacuna na sociedade que despreza quem sai da prisão. A sociedade olha para o ex-recluso com preconceito. “Cheira mal”, “rouba”, “droga-se”, diz P.e João Gonçalves, fazendo eco do pensar e sentir das tais sociedades “muito arrumadas” – a nossa – e por isso marginalizantes.
O voluntário prisional deve ser o princípio de algo novo. “Não somos voluntários em sentido social”, afirma o coordenador da pastoral prisional em Portugal. E acrescenta: “A nossa identidade deve ser a evangélica. O voluntário católico está em ligação com a capelania e a Igreja. É presença de Igreja. É sinal de Jesus Cristo, leva a boa nova da libertação e da alegria”. Por outras palavras, o voluntário é sinal de que a nova sociedade é possível.
J.P.F
