Preconceito positivo

Quando a lucidez não me estranha, as leituras sucedem-se no deserto do trabalho pelas noites de lua cheia, e então, é possível entranhar-se na vida missionária, que não é apêndice da vida cristã. E porque a vida também se lê, hoje, preciso navegar sem rede, dentro das minhas cidades invisíveis, meus próprios mundos desiguais, por entre as graças e os pecados da vida também dita pastoral porque social. Estou vivendo a vida abundante, e tudo o mais não importa muito.

À pergunta que santo Agostinho se fazia em nosso nome, e dava uma resposta que arrepia a todos, menos aos agnósticos, porque nunca se assumem, sucedia pergunta refor-mulada que era: de que se “ocupava” Deus antes de criar (antes de haver Tempo propriamente dito, especulação que nos deixa no mínimo perplexos) ? Resposta pessoal de insolência adolescente: lia um bom livro, de preferência com ilustrações. Deus criou lendo um manual de instruções, que se fazia simultaneamente. Por essa razão simbólica, nós somos um preconceito ordinário com sucesso na extraordinária obra da Criação Cosmológica. Somos todos um pouco uma biografia bem administrada colectivamente, em currículo altamente personalizado.

Vai daí continuei a pensar: estima as pessoas que lêem, elas são o teu círculo de relações mais íntimo. A pergunta dupla… qual foi a sua última leitura e o que mais o/a impressionou? Até que ponto essa leitura se inscreveu na pessoa e na vida particular? Aí pronto, a divisão de águas está feita. Claro que só entendemos este critério, quando há pessoas, ou se há pessoas – que não têm a gravidade moral de sofrer de iliteracia (“A iliteracia não é só um mal característico dos países subdesenvolvidos, mas um verdadeiro mal dos tempos”, in Grande Reportagem, Lisboa, Novembro, 1997, nº80 – 2ªSérie ) – e devem exercer essa capacidade de se tor-narem leitores(as). Analfabetismo funcional, ou outra especificação, é problemática a interrogar como-saber-fazer.

O drama começou, quando fiz análise introspectiva de mim mesmo. Tipo elitista intelectual extremoso: “Você é voyeur de si mesmo”. Drama que teve vários actos e sub-tragédias. Um agulhão mordaz e omnipresente: tens de oferecer o teu melhor livro! Ler é tua idolatria. Livros são os teus ídolos. Essa história de leitura é quase doença. Recordo com nostalgia a minha filiação na Biblioteca Calouste Gulbenkian.

Após a tua 5ª e última viagem de avião, conscientemente a primeira de trabalho, tomas a percepção que a tua bagagem é 59% feita de livros. Eles grudam em ti; trata-os como verdadeiras “top-model”. O delírio parecia sem fim à vista. Dos 5 últimos livros lidos e eleitos como os “melhores”, para oferecer…teria de escolher: um que não estivesse riscado; um não dobrado; um não amarrotado; numa palavra, que não estivesse maltratado, isto é, limpo e em certo sentido virgem. Tarefa dolorosa porque, em 5, 4 estão afetados pelos sintomas atrás descritos, que os transformavam na condição de “não-presentáveis”.

Quem lê, lê de tudo. Não quem simplesmente junta fonemas. Lê de tudo o que tem à mão por entre os olhos. Ironicamente, para meu sublime contentamento, fui diagnosticado com uma “insuficiência de convergência” pelo meu oftalmologista. As inclinações subversivas dão nisso, ri na minha própria cara, o que é terapêutico. Haverá porventura leituras incorrectas, privadas em intimidade (!?), impróprias para algumas idades ou estados psicológicos? Bem, obviamente não se pode ser amoral por um mínimo de honestidade intelectual. Não somos neutros, mas somos ambíguos, especialmente, autoformados pelas nossas situações. A verdade existencial, a única que interessa, é nua e crua. Não há lugar a paliativos.

Oferece um livro da “tua biblioteca”, daquela mala bem pesada que levarias para uma ilha deserta. Era a exigência de dar-me a mim mesmo, tipo dar sangue para que outro sobreviva à morte ou à vida. Pensei e racionalizei, chegando a ponto de comprar um presente alternativo. A conclusão irrompeu com serenidade: dá o que te custa mais; e de repente foi um parto sem dor, experiência paradoxal.

Dei a “porra” do livro… e mais nada de possessivo me habitou. Fui libertado, na certeza de tantos livros desejados que literalmente me encontraram e salvaram. Tal e qual como os amigos e as amizades. E novamente outras leituras à margem me completam, porque abrem ao essencial: “Os bons são salvos, e com muito maior razão os maus serão salvos” (A obra Tannishô – O Tratado de Lamentações das Heresias).

Para terminar, preconceito positivo é oferecer livros, selecionados em obras e autores (sobretudo, clássicos, pós-modernos, ou marginalizados… os que estão fora da cultura de massas, que não tenho nada contra, porque simplesmente não alimentam a espiritualidade do leitor, só servem de distração…), e não perder nenhuma oportunidade para o fazer. Dê sem mais leituras. É um investimento incalculável, apesar de caro. Dê o que o fez crescer em humanidade. Dê o que o fez mais rico ou pobre, mas nunca dê as sobras da sua riqueza ou pobreza. Dê tudo por inteiro. Porque é assim que um livro se dá à sua leitura prazerosa. Leia livros e dê livros aos seus amigos e, sem insultos, aos seus inimigos também. Ler é um acto de lentidão e preguiça do Ser. Um livro é um mundo que se abre sem limites. Um livro é um colírio para a alma.

Fim do sequestro literário… algumas sugestões impróprias para leituras apressadas. Para me queimar, definitivamente, eis uma proposta para concretizar leituras em possíveis ofertas que fiz, no mundo virtual que nos gera todos os dias: a) oferta politicamente “correcta” – “Uma vida de Jesus” – Shusaku Endo; b) oferta politicamente “incorrecta” – “O Engenhoso Fidalgo – Dom Quixote de la Mancha” Miguel de Cervantes Saavedra, Ed. Lello & Irmão (3 volumes), 1969; c) oferta politicamente “saudável” – “O Príncipe e a Lavadeira” – Nuno Tovar Lemos.