Notas Litúrgicas 12. Linhas de espiritualidade “eucarística” para o sacerdote (B)
d) Presidir à Eucaristia comunitária deveria comunicar ao sacerdote, também para o resto da sua actuação existencial, um tom de louvor e optimismo eucarísticos.
É a “educação” progressiva que a Oração Eucarística, proclamada por ele, diante e para a comunidade, deveria ir exercendo, alimentando a sua espiritualidade.
Esta Oração faz-nos celebrar o Mistério de salvação que Deus realizou e continua a realizar também hoje: isto deve dar à nossa mentalidade um tom de visão positiva.
Esta Oração, sobretudo aos sacerdotes, fá-los exercitar a atitude de louvor e acção de graças, de admiração pelas maravilhas de Deus. Isto deveria dar um colorido diferente a todo o resto da jornada. “Celebrando a Eucaristia, aprendemos a ter uma existência eucarística, a eucaristizar tudo, não só no momento gozoso da celebração, mas também sobre quanto Deus nos confia” (Jesus Cristo, pão partido para o mundo novo, documento para o Cong. Eucarístico Internacional de 1981). Ao longo do dia prolongamos, se se entendeu bem o momento presidencial da celebração, esta mesma visão admirativa e agradecida: os olhos de uma fé pascal que sabe descobrir a presença salvadora de Deus nos mil acontecimentos do dia.
A Oração Eucarística ajuda-nos também a sentir uma harmonia interior: ela leva-nos a pronunciar continuamente uma visão reconciliada da história e do futuro, da memória e da profecia que nos mostra a fé cristã e a nossa celebração, uma relação equilibrada com o próprio cosmos e a humanidade, tudo isso sob a luz de uma Páscoa, cujo memorial celebramos, no momento culminante da Eucaristia.
A atitude “eucarística” do sacerdote, também para o resto do seu dia, supõe que está consciente da actuação do Espírito: ele invocou na epiclese a força desse Espírito sobre os dons do pão e do vinho e também sobre a comunidade dos seus irmãos. Pediu, e está intimamente convencido de que foi uma petição eficaz, que o Espírito eucaristize esses dons e que faça que a comunidade cresça na unidade e vitalidade. Fora da Eucaristia deve continuar a invocar o Espírito, porque o efeito último da Eucaristia não se cumpre nela, mas na existência histórica de uma comunidade que deve crescer e dar testemunho cada vez mais claro do Evangelho de Cristo.
e) Outra dimensão da presidência eucarística do sacerdote, que de imediato deveria marcar a sua espiritualidade de cristão e de ministro, é a escuta da Palavra de Deus.
Presidir à celebração da Palavra, com o seu ministério da homilia, e se proclama o evangelho, também com a ênfase que coloca nesta proclamação, mais importante certamente que o seu próprio comentário, deveria deixar nele a sua marca.
A atitude que tem, face à Palavra, durante a celebração, como também fora dela, na sua oração pessoal, na oração da Liturgia das Horas, etc., deve partir de que ele não é dono da Palavra, mas seu servidor. Um profeta não inventa, mas transmite a Palavra de Outro. Precisamente porque ele mesmo assimila essa Palavra, é capaz, a seguir, de a explicar ou aplicá-la aos seus irmãos. Mas primeiro ouve-a ele mesmo, permanece ele como discípulo da Boa Nova. Ressoa nele, e depois di-la aos outros. É muito expressiva a imagem plástica que aparece no livro de Ezequiel e no Apocalipse: primeiro o profeta deve “comer o rolo” da Palavra, seja qual for o gosto que tiver, geralmente agridoce, para que a seguir possa ser credível o que tem que transmitir.
f) Uma última direcção em que presidir deve ter consequências na espiritualidade do presbítero é a sua atitude de entrega sacrificial para com os outros.
A comunidade, na celebração da Eucaristia, e de uma maneira especial o seu presidente, proclama e participa no sacrifício pascal de Cristo. A Eucaristia é memorial sacramental dessa entrega de Cristo na Cruz. De tanto repetir o binómio “memores… offerimus”, “celebrando o memorial… Vos oferecemos”, é o sacerdote o primeiro que deve incorporar-se na dinâmica dessa oferenda de Cristo com uma pessoal auto-oferenda da toda a sua vida. A petição que algumas Orações Eucarísticas fazem de que nós nos convertamos em “oferenda viva para louvor da Vossa glória” ou em “oferenda permanente”, deveria cumprir-se sobretudo no presidente.
Na vida, tudo o que faz ao serviço dos homens é participação no sacrifício e na entrega pascal de Cristo: é “matéria” da Eucaristia. A oração privada que diz no ofertório, pedindo a Deus que o acolha a ele mesmo também, como aos dons que estão sobre o altar (“in spiritu humilitatis… suscipiamur a te, Domine”), deveria tê-la presente ao longo de todo o dia, porque os momentos de alegria e dor, as fadigas e preocupações, não são algo alheio ao que realiza quando preside à Eucaristia. Em nome de Cristo e, portanto, imitando mais que ninguém a atitude de Cristo (“meu Corpo, por vós”), realiza as duas coisas: presidir à celebração e viver uma vida evangélica de entrega sacrificial. Assim, a Eucaristia dá cor a todos os aspectos da sua missão ministerial.
SDPL
