Notas Litúrgicas 12. Linhas de espiritualidade “eucarística” para o sacerdote (A)
O ministério de presidir à Eucaristia é um valor que marca para toda a vida, para o resto das actividades que o sacerdote também mantém fora da celebração.
As mesmas atitudes que lhe permitem representar bem a pessoa de Cristo na celebração da Eucaristia são as que também o mantém fiel à sua identidade ao logo de toda a sua jornada.
a) É sinal visível de Cristo na Eucaristia, onde na verdade actua “in persona Christi”. Quando dirige a Deus a oração de toda a comunidade e quando explica à comunidade a Palavra de Deus, o sacerdote sente-se intimamente unido a Cristo, a quem está particularmente configurado pelo sacramento da Ordem e a quem torna sacramentalmente visível no meio da comunidade. Por isso, o Missal diz que quando preside à Eucaristia “procurará sugerir aos fiéis a presença viva de Cristo” (IGMR 93).
Mas esta convicção e esta atitude de fé é também a que lhe é pedida fora da Eucaristia. Quando atende os outros, quando se dedica à evangelização ou à catequese, quando cuida das crianças e dos doentes ou dos marginalizados da sociedade, quando trabalha pela convivência fraterna, quando gasta as suas melhores energias na entrega pelos outros, está a ser imagem sacramental de Cristo. Não é um actor independente: é “enviado” de Cristo, seu apóstolo no meio da sociedade e da Igreja. Um enviado, fundamentalmente, deve estar em íntimo contacto com quem o envia. A oração pessoal, a meditação, a Liturgia das Horas rezada em união com Cristo, a atenção meditativa e o culto à Eucaristia: tudo isto é a referência em que tem sentido que presida à Eucaristia em nome de Cristo e, ao mesmo tempo, a consequência de que realize este ministério consciente e profundamente.
b) Quando preside à Eucaristia está também unido à comunidade à qual preside. Não actua fora dela. Mas dentro dela. É um membro da comunidade, um irmão que recebeu da Igreja o encargo e a graça sacramental para realizar este ministério para bem dos outros.
Presidir a partir de dentro significa amar os seus irmãos, a todos eles, conhecê-los, interessar-se pelo seu bem espiritual, ter como fim último o servi-los pelo seu ministério para que possam mais facilmente sintonizar com Cristo e o seu Mistério eucarístico. Esta convicção dá-lhe um tom e um estilo de actuação, ao mesmo tempo humilde e confiado, no momento da Eucaristia.
Mas também aqui, se pede ao sacerdote a mesma atitude e o mesmo perfil espiritual fora da igreja. Dele se espera que seja animador da comunidade em tantas coisas: que preceda e anime todos na fé, no serviço da caridade, na construção da fraternidade e no testemunho missionário no meio da sociedade. A Eucaristia será o momento privilegiado, quase como que uma “fotografia” de tudo o que inclui a vida da comunidade. Mas a seguir, quer a própria comunidade, como o sacerdote dentro dela, têm que viver esses valores no decorrer das suas tarefas ao longo do dia e da semana.
Por exemplo, a introdução ao livro da Liturgia das Horas pede aos ministros ordenados que tenham em conta, sobretudo, que “lhes incumbe convocar a comunidade e dirigir a sua oração… convidar os fiéis e proporcionar-lhes a devida catequese… que os ensine a orar com os salmos…” (IGLH 23). O que anima, dirige e completa a comunidade na Eucaristia, fá-lo também –deve fazê-lo– fora dela, nas várias facetas da vida cristã.
c) Tudo isto faz que o sacerdote necessite de uma postura espiritual de humildade e sentido eclesial.
Ele não é dono, nem da Eucaristia, nem da comunidade. Deve-se sentir como um servidor de Cristo e da comunidade. Além disso, a sua condição de ministro ordenado da Igreja fá-lo sentir e exprimir na sua actuação o nexo teológico e vital com o seu Bispo, e através dele, com a Igreja universal.
Como servidor, e não dono, a sua postura deve ser claramente de humildade, partindo da confiança que lhe dá a graça de Cristo e a missão que a Igreja lhe confiou. Tanto no altar como na rua, sente-se membro da comunidade, irmão, próximo, acolhedor, cordial. Já sabe que tudo isso que ele tenta comunicar à assembleia não é exlusivamente seu: sabe que a iniciativa vem de Deus, que exerce o seu sacerdócio como representante do Sacerdote verdadeiro, Jesus Cristo. E que também realiza o seu serviço por encargo da Igreja. Não é sua a graça, nem a fé, nem a mensagem de salvação que ele é chamado a transmitir aos irmãos. Tudo isso é de Jesus Cristo e do seu Espírito, e antes de lhe ser confiado a ele, havia sido dado à comunidade eclesial.
SDPL
