Problemas psicológicos da mulher após o abortamento provocado

Pensar a Vida Fico sempre chocado quando, no meio das campanhas que sempre se fazem ao discutir o abortamento provocado, aparecem mulheres em manifestações, a proclamarem publicamente que também elas já fizeram um ou mais abortamentos. E a minha incompreensão é tanto maior quanto é difícil negar que, a seguir a uma fecundação, há uma nova vida humana que começa a desenvolver-se e crescer dentro da mãe.

Na verdade, antigamente, a gravidez era um tempo de segredo em que a mãe pressentia a gestação pela ausência da menstruação regular e por sinais indirectos concretizados pelo bater dum coração dentro de si a um ritmo diferente do seu, ou mais tarde, pelos movimentos fetais.

Hoje, basta procurar revistas, que se encontram com facilidade no quiosque da esquina onde compramos os jornais diários, e escolher as que descrevem, infelizmente quase sempre em língua estrangeira, os primeiros nove meses de vida, ilustrados por excelentes reproduções de ecografias intra-uterinas. Ou então, ainda com mais impacto, ter a sorte de rever na televisão, programas já apresentados várias vezes em diferentes canais, que mostram o bebé desde a sua fecundação, filmado por ecógrafos do último modelo.

É por isso hoje difícil ignorar que um abortamento representa a destruição dessa vida humana dentro do seu corpo, que só uma mulher pode um dia sentir.

Por isso, as únicas possibilidades de minimizar o sofrimento e a depressão dessa perda estão no tentar convencer-se de que aquela hemorragia foi uma simples menstruação que não veio na altura própria, ou então que o bebé viria a sofrer com as anomalias, ou as deficiências sensório-motoras que o iriam afectar para sempre. Outras vezes, a adesão ao abortamento é conseguida por motivos sociais que deprimem a mulher, deixando-a sem apoios nem solução aparente.

Estão neste caso as mães adolescentes ou pré-adolescentes, as mulheres solteiras abandonadas pela família e principalmente pelo pai daquele filho, a figura que desde sempre se habituou a lavar as mãos qual Pilatos da era moderna. Outras situações ainda mais dramáticos estão ligadas a violações, à prostituição mais ou menos institucionalizada, acompanhadas por uma miséria económica que recai quase sempre sobre os ombros da mulher deixada só.

A maternidade, que deveria ser uma fonte de alegria e de plenitude, passa a ser assim um motivo de sofrimento e de angústia.

Na realidade, apesar de todos os mecanismos psicológicos de desculpabilização e de despenalização jurídica, qualquer mulher, depois dum abortamento provocado, sofre uma depressão própria dum verdadeiro trabalho de luto.

Há, primeiro, uma revolta contra o homem que enjeitou as suas responsabilidades e a deixou, ou mesmo a forçou a abortar. Depois, contra o meio onde vive, que ela considera mais ou menos cúmplice de tudo o que lhe aconteceu. Esta mesma agressividade pode estender-se ao médico, que ela no seu subconsciente acaba por culpar, porque nunca se poderá ter a certeza absoluta de que no fundo de si mesma ela não quisesse ter aquele filho.

O sindroma de culpabilização/desculpabilização, de depressão e agressividade, que pode estar em relação com a interrupção das alterações bioquímicas próprias da gestação, pode perdurar. Muitas vezes, renova-se com a eventual dificuldade de conseguir uma nova gravidez, logo atribuída por ela a uma espécie de castigo que a vai perseguir, a si ou mesmo ao outro filho que já deseja, mas que, por isso mesmo, terá dificuldade em imaginar.

Por tudo isto, o abortamento nunca terá uma solução psicológica fácil, antes ou depois de se ter realizado. No fundo, se o filho é sempre a primeira vítima, a mulher, a outra vítima principal, exige imensa empatia e compreensão do médico, do psicólogo, da família ou mesmo do sacerdote, para que possa um dia reencontrar de novo a esperança e a paz.

Jorge Biscaia (Pediatra)

Jorge Biscaia (Pediatra) escreve a convite da ADAV

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