Foi anunciado como a superação de um tabu, como uma iniciativa que nos coloca ao lado dos países “evoluídos” da Europa, como uma medida de justiça – significando a entrega do problema da toxicodependência nas prisões aos cuidados do Serviço de Saúde.
Não ponho em questão que toda a gente é pessoa, com uma dignidade inviolável. Por isso, para todos deve o Estado empenhar-se em que sejam tratados como pessoas humanas, no respeito mais profundo pela sua dignidade.
Mas as salas de troca de seringas e de injecção assistida vão no sentido de respeitar os próprios toxicodependentes? Respeita-se a sua dignidade continuando a alimentar o vício e a degradação? Mesmo em situações de desagregação avançada, não há processos de tratamento, ao menos paliativo, que lhes seja muito mais benéfico?…
E, dispendendo somas consideráveis para este efeito, onde está o respeito pelos contribuintes que se empenham em ser fortes na resistência às malhas dessa teia infernal, que se comprometem em formas de prevenção pessoal, dos seus, das suas comunidades educativas?…
A droga é uma praga social! Então, é preciso atacar as causas dessa praga. Desde os interesses ocultos de quem enriquece à custa do negócio – e é incompreensível perceber-se que nunca são claras as acções de busca, de detenção, de punição dos responsáveis.
Passando depois por verdadeiros programas de prevenção, nos diversos espaços educativos, das escolas aos grupos e movimentos de jovens. Mas também com medidas sociais firmes, com redefinições de espaços e de horários de lazer. A par com políticas de emprego e de apoio social que promovam o gosto pela ocupação, o sentido da dignidade do trabalho, a justiça de compensações sociais económicas apenas contra provas dadas de incapacidade e com o compromisso de empenho proporcional em valorização pessoal e serviço comunitário.
Em contrapartida, sucedem-se cortes em comparticipações de medicamentos e exames auxiliares de diagnóstico a doentes que não procuraram as suas doenças, que são vítimas de factores hereditários alheios a responsabilidades pessoais, que vítimas da incúria ou da maldade de terceiros…
Afinal, o que é que conta? Estar a par de regimes que dirigem realidades completamente distintas da nossa – vencendo tabús (?) -, para sermos do “Plutão da frente”? Ou encarar com verdade a população que nós somos, com o quadro social e de saúde como ele é, para tomar medidas que acabem com as listas de espera, que garantam cuidados adequados e acessíveis a todos os cidadãos?
Ultrapassar tabus cheira-me, muitas vezes, a uma cega “fidelidade” a princípios (programas) ideológicos, a complexos de imitação, que pouco têm a ver com a vida das pessoas.
